quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Clara Nunes





Para Paulinha, menina de ouro de Minas.

Alguns classicos eternizados pela nossa deusa dos Orixás.

O mar devia realmente serenar quando Clara Nunes pisava na areia
e a estrela devia indagar a si mesma: a estrela afinal será ela ou sou eu.
"Com sua licença Candeia"

Alvorecer
Composição: Ivone Lara / Delcio Carvalho

Olha como a flor se ascende
Quando o dia amanhece
Minha mágoa se esconde
A esperança aparece
O que me restou da noite
O cansaço, a incerteza
Lá se vão na beleza
Desse lindo alvorecer
Lá se vão na beleza
Desse lindo alvorecer
E esse mar em revolta que canta na areia
Qual a tristeza que trago em minh’alma campeia
Quero solução sim, pois quero cantar
Desfrutar dessa alegria
Que só me faz despertar do meu penar
E esse canto bonito que vem da alvorada
Não é meu grito aflito pela madrugada
Tudo tão suave
Liberdade em cor
O refúgio da alma vencida pelo desamor


As Forças da Natureza

Composição: João Nogueira/Paulo Cesar Pinheiro

Quando o Sol
Se derramar em toda sua essência
Desafiando o poder da ciência
Pra combater o mal
E o mar
Com suas águas bravias
Levar consigo o pó dos nossos dias
Vai ser um bom sinal
Os palácios vão desabar
Sob a força de um temporal
E os ventos vão sufocar o barulho infernal
Os homens vão se rebelar
Dessa farsa descomunal
Vai voltar tudo ao seu lugar
Afinal
Vai resplandecer
Uma chuva de prata do céu vai descer, la la la
O esplendor da mata vai renascer
E o ar de novo vai ser natural
Vai florir
Cada grande cidade o mato vai cobrir, ô, ô
Das ruínas um novo povo vai surgir
E vai cantar afinal
As pragas e as ervas daninhas
As armas e os homens de mal
Vão desaparecer nas cinzas de um carnaval (2X)


Juízo Final

Composição: Nelson Cavaquinho/Elcio Soares

O Sol há de brilhar mais uma vez
A luz há de chegar aos corações
Do mal será queimada a semente
O amor será eterno novamente
É o juízo final
A história do bem e do mal
Quero ter olhos pra ver
A maldade desaparecer
O Sol há de brilhar mais uma vez
A luz há de chegar aos corações
Do mal será queimada a semente
O amor será eterno novamente

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Música que é Silêncio

A música é o silêncio,a quietude...nada mais...
Eleva os pensamentos, Acalma a Alma .

Um pouco de Noel Rosa

Último Desejo

Composição: Noel Rosa

Nosso amor que eu não esqueço, e que teve o
seu começo
Numa festa de São João
Morre hoje sem foguete, sem retrato e sem bilhete,
sem luar, sem violão
Perto de você me calo, tudo penso e nada falo
Tenho medo de chorar
Nunca mais quero o seu beijo mas meu último desejo
você não pode negar
Se alguma pessoa amiga pedir que você
lhe diga
Se você me quer ou não, diga que você
me adora
Que você lamenta e chora a nossa separação
Às pessoas que eu detesto, diga sempre que eu não
presto
Que meu lar é o botequim, que eu arruinei sua vida
Que eu não mereço a comida que você pagou pra mim


Quem não quer sou eu

Composição: Noel Rosa e Ismael Silva

Quando eu queria o teu amor
Não davas atenção ao meu
Pra mim tu não tens mais valor
Agora quem não quer sou eu
Observo que hoje em dia
Quem não quis diz que me quer
Cabe muita hipocrisia num capricho de mulher
Vou viver desiludido
Sem amor, sem ideal
Pra não ser submetido a desejo tão banal
Ao ouvir tuas propostas
Com tão falsas frases juntas
Achei uma só resposta que responde mil perguntas
Hás de ter em tua vida
Um destino igual ao meu
Podes ir desiludida, hoje quem não quer sou eu


É Peso

Composição: Noel Rosa / Ismael Silva

É peso, estou pesado
O meu viver é uma sentença
Que eu fui condenado a cumprir
Esta pena o remorso condena
Eu serei sentenciado
Se eu soubesse que a saudade
Não se esquece nem querendo
Não deixava essa amizade
Para não ficar sofrendo
Hoje eu quero e não me queres,
E o remorso que me invade
É saber que tu preferes
Morrer longe de saudade
E quando a lua descampa
Um pandeiro a batucar
Saio da roda do samba
Pra ninguém me ver chorar
Ao azar hoje me entrego
Quem tem peso tem azar
Mas o peso que eu carrego
É a pena de te amar

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Um poeta diaspórico escreveu

Diz o I Ching:
Divino é saber
O que distingue
Você de você

Você dos outros
Do outro você
Você do mundo
Do você do ser

Você num canto
Vive o espanto
Enquanto o outro você
Sai pra viver
Por aí
Tanto pranto, tanta dor
Seu irmão
Pede o seu amor

Diz o I Ching:
Divino é saber
São dois no ringue
Você e você

Você que ataca
Pra se defender
Que beija a lona
Pra poder vencer

Você num canto
Apanha tanto
Enquanto o outro você
Bate demais
Deus do céu
Quanto sangue pelo chão
Seu irmão
Pede o seu perdão

http://www.gilbertogil.com.br/sec_disco_interno.php?id=48


cavuquem lá a faixa 10.

Fresta de segunda-feira

Ao que me escapa
A vida de todos os dias
Foge também o menino
Andando vazio pelas ruas
No frio antigo da minha cidade.

Queria ir à África,
Queria ser a África.

Na manhãzinha úmida da névoa construída
- a noite engenhava sonhos -
Eu ia em busca da missa.
À espera da escola, à espera do sinal estridente.
Meus sapatos pretos acordavam
A calçada ainda dos bêbados do domingo.
Antes da capela, o padre holandês
Triste, triste, triste,
Passava com seu cachimbo à boca,
Equilibrando o grande corpo
Na miúda bicicleta.

E eu me equilibrava no meio-fio!

Queria ir à África,
Queria ser a África.

O tempo depois contou tristezas maiores,
Mais fundas.
Mas colava o material das aulas ao corpo
Acompanhando o sol chegar.

No caminho,
Pardais me davam abrigo,
Pardais carregavam o fim,
Esse fim que nunca acaba,
E na missa eu via o cachimbo
Tragando tudo
Tudo tudo.

Trem no altar.

Então a fumaça
Salvava o menino
Alçava meu corpo
Sobrando nas nuvens
Junto às andorinhas.

Escapava por uma fresta do vitral
E me encontrava com São Francisco,
Laico, sem fé nem rei,
Como São Francisco deveria ser.

E só, nesse momento, eu sorria.
As freirinhas escondiam o rosto da alegria
Mas o padre, por um instante,
Ao me ver ausente,
Acreditava enfim em Deus.

Aquele menino, quando hoje acendo um cigarro,
E sinto a tarde anoitecer comigo,
Senta ao meu lado
E me chama para ver o mar.

E eu não dou a mínima.

Queria ir à África,
Queria ser a África.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Cólera

Letras do disco "Pela Paz em Todo Mundo", lançado em 1986.

É Natal?!

É natal?! É natal?! Se é natal não sei?!
Se é natal?! Se é natal?!
Se é natal não sei!!!
Os pobres ficaram bem mais pobres
Os ricos muito muito ricos
O comércio fica aberto dia e noite
Os presentes e chantagens
Todos trocam sem pensar
para no dia seguinte se odiar. (É natal?!...)

Os assaltos multiplicam
Guerras seguem sem parar
Matam animais a toa, só para treinar
Não preciso de pretexto
Não preciso de natal
Todo dia é importante
Todo dia é igual. (É natal?!)


Direitos Humanos


OH! OH! OH! OH! OH! OH! OH!
Quando eu passo a noite nas esquinas
Esperando um ônibus que nunca vem
Vejo mulheres prostituídas
Tento imaginar porquê,
Vejo moleques rasgados, perdidos
Não tem um amigo mas porquê?

DÊ UMA OLHADA PRA ESTAS VIDAS!
DÊ UMA OLHADA PRA ESTAS VIDAS!
ONDE ESTÃO, ONDE ESTÃO
OS DIREITOS DE VIVER???

Eu me lembro falam na declaração
Que nascemos LIVRES, LIVRES POR IGUAIS.
Mas não entendo se escolhemos
Ou se alguém escolheu por nós
Não está certo, alguns tão ricos
Outros não tem nem um amigo...

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Furioso silêncio, registrado

Antes de abrir as cortinas há o ensaio da carochinha

Um terço sou espreguiço diante do precipício inventando genealogias.

Joelho, silencio e franzir de sobrancelhas saíram paternos.

Gigante desajeitado abre alas para olhares no corredor: processos.

Tenho reparado nos sinônimos para detalhe: fenda, cicatriz, beco

No rosto das pessoas.


Muita saudade da idéia de mim que colava.

Agora salto
cerca e envidraço telhados.

Alegria vêm em potes cor de praia,

Na esquina a vida à venda no atacado.

Falar de si é dar movimento ao personagem.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Explicação conveniente

Sossega, canção!
Fazendo poesia não entristeço.
Quem entristece
São os poemas.

Aniversário

Tenho uma palavra guardada
Mas move sem intenção
Seu percurso e sentido.

Às vezes nasce uma árvore
No vento que se resta em ânsia
Outras morre um segredo
Na água que se sussurra em peixe

Manso que corre os canais da minha terra.

Acendo um cigarro.
A vida é feliz pra quem?

A poeira sinto da estrada
O golpe tênue da viola.
Maria, por que chora o sítio
João, por que tanto a dor

Desse roçado de névoa
Dessa marmita do chão?

Tenho uma palavra nua
Que singra terna quando vejo
Mulheres e homens
Partilhando o alimento
Na calçada suja
E o cigarro de depois.

Os carros da avenida,
Os transeuntes satisfeitos,
Me põem só
Ponto no meio do sol insuportável da cidade.
E sequer percebem
Que essa é a minha gente.

Ainda que sua revolta seja surda
E tenha no silêncio seu primeiro e último grito.

Ah, poeira, sinto sua chegada.
Cobrirá a alegria daquele que pensa em paz
E sabe da próxima forma de nascer perfeito.

Ficarei com o defeito.

É mais humano
Mais triste
E não se declara.

No entanto, no campo largo da vida, é a única presença
De quem vê a luz
Depois do parto.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Aos Maranduvás!

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

segunda feira

Imagem: Fábio Franco de Moraes


Era depois da esperança de dormir, levantou fazer um chá qualquer.

Clementina e Carolina Maria são ambas de Jesus

Tenho meia fruta pro contado do busão e ganho outra meia na voltinha amanhecendo, rodiada de idas.

A gente vai ali viver um amor eterno e daqui um pouco volta cheia de paninhos sujos pra lavar na pia...

Avesso de verso é revide, adverso da paz: centenas de flores de amora no intervalo do branco (a paixão).

Mas não foi assim.

Era depois de um chá que preparei pra tomar sozinha.

Lá sentada na sombra dos paninhos limpos,


permaneci olhando: "formigas tem uma disponibilidade de dispor da vida que chega a ser

bonito".

Estava escrito na placa no fim do canteiro, ao lado de uma segunda com os dizeres "é proibido

pisar no outro".

Um sopro histórico de MPB. (7ª. Parte)

Outro grande marco na carreira de Geraldo Filme, é a musica “Tebas”, na qual conta a historia do negro escravo, que construiu a primeira catedral da Praça da Sé e também o chafariz da Misericórdia, isso em 1700 e poucos, ele canalizou a cidade, puxando água do vale do Anhangabaú com tubos, feitos com papel velho e betume. Curioso com a expressão, do tempo de seus avós, que denominava quem sabia fazer tudo de tebas: fulano é um tebas. Ele fez uma pesquisa na Cúria Metropolitana, no Correio Paulistano e no jornal italiano, a Fanfulha. “Na Cúria não tem acesso aos livros, mas eu me apresentei como universitário. Se eles pensassem que era pra fazer enredo, não iam deixar. Lá levantei que esse Tebas conhecia tudo de alvenaria com 21 anos de idade. Então ele parava todo dia em frente ao convento do Carmo, estava sempre parado ali, e um dia o padre Justino, que era o capelão lá, perguntou: ‘O que você faz ai todo dia? ’. Ele disse: ‘Fico olhando pra saber porque não tem torre’. ‘Porque a gente não sabe fazer’. Ele falou: ‘Eu sei’. O padre acreditou nele e foi lá na fazenda Taponhoem, no Paraíso, naquela região em que hoje está a Brahma, conversou com o sinhô dele. Lá ele viu um monte de obras em alvenaria e quis comprar. O sinhô disse: ‘Não precisa comprar, leva ele’. Então o escravo fez um acordo com o padre: ‘Eu construo a catedral com vocês, mas o primeiro casamento lá tem que ser o meu’. (...) As escravas iam buscar água na fonte naqueles cântaros. Eu tenho ainda esse mapa que xeroquei do jornal, parte da Liberdade e aquele Centro todo canalizado por ele. Tebas, o Escravo é o enredo. Ai os estudantes falaram: ‘Onde você levantou isso?’. Tebas pra eles é só uma cidade da Grécia, mas não sabiam que tinha um aqui. Tanto que em 25 de janeiro fiz um protesto contra aqueles painéis na Praça da Sé, que dá o nome dos autores, dos construtores. A catedral, a primeira catedral que esse negro construiu, o chafariz da Misericórdia estão expostos lá, mas não dá o nome do autor. Mas a gente sabe que era ele."

Tebas, negro escravo
Profissão alvenaria

Construiu a velha Sé
Em troca pela carta de alforria

Trinta mil ducados que lhe deu padre Justino
Tornou teu sonho realidade
Daí surgiu a velha Sé
Que hoje é o marco zero da cidade
Exalto no cantar de minha gente
A sua lenda, seu
passado, seu presente
Praça que nasceu do ideal

E praça escravo é praça do povo

Velho relógio
Encontro dos namorados
Me lembro ainda dos bondinhos de tostão
Engraxate batendo a lata de graxa
Camelô fazendo pregão

O tira teima do sambista do passado
Bexiga, Barra Funda e Lavapés
O jogo da tiririca era formado
O ruim caia e o bom ficava de pé
No meu São Paulo, oi lelê era moda
Vamos na Sé que hoje tem sa
mba de roda
No meu são Paulo, oi lelê era moda
Vamos na Sé que hoje tem samba de roda

Como outros que tiveram fundamental importância na historia do Samba e do Carnaval, ele fala disso com muita saudade, ironia e tristeza pela perda total da essência destes movimentos culturais. “O carnaval de São Paulo? Eu, graças a Deus, vi carnaval em São Paulo, porque hoje em dia é espetáculo. Os próprios sambistas estão preocupados com os carros alegóricos, que eu chamo de ‘porta-veado’. As meninas sacudindo o bumbum, a televisão não pega outra coisa, não pega ninguém sambando no pé, não se preocupa com musica. Os itens que tem ligação com o samba não estão interessando, o que esta interessando é a beleza, aquela coisa toda. Mas eu peguei carnaval quando todo mundo brincava. A gente tomava o bonde, fantasiado, ia na Cidade da Folia, que é um reduto de samba que se criou na década de 40, quando nós perdemos o direito de brincar na rua. Então levava os cordões e as escolas pra lá. (...) Não é como hoje em dia, São Paulo tinha carnaval, todo mundo brincando. Eu tenho esse material que pertence ao Estado, mas eles estavam jogando fora. Eu recolhi com o Sergio Lara e fizemos uma mostra na Casa de Cultura Mazzaropi, do carnaval de 25. Esses carros alegóricos, essas pizzas que põe mulher em cima, nessa época já tinha.”

A família sempre foi importante na formação dos grandes sambistas, a maioria gostava de grandes festas, no seu batizado foram três dias de festa, não tinha como ele não gostar daquilo. “Meu pai viveu uns tempos no Rio, então ele gostava daquele negócio. Ele dizia: ‘Lá no Rio sai 30 cuíca na escola, 40 surdo, tantas malacacheta. E vocês aqui com esses couros de gato?’ Eu e o Zeca esfolava uns bichaninhos para empachar tamborim. Zeca da Casa Verde, meu parceiro de sempre, desde criança que a gente ta junto. Então eram aqueles tamborins quadrados. Não tinha tarraxa, era tachinha e fogo e dá-lhe jornal. De vez em quando procurava: ‘Cadê fulano que não ta tocando?’ Ele estava esquentando o surdo lá atrás da escola.”

“Mulheres ligadas ao samba da velha guarda: a falecida Sinhá, dona Eunice da Lavapés, dona Olímpia do Bixiga, Donata, que foi a primeira-dama do samba, era a mulher que puxava o samba na avenida, do tempo sem microfone, lá da Barra Funda. A Donata lembra tudo que cantava nos cordões, desde muitos anos. Ela era o gogó da avenida, vinha no meio da ala passando o samba pra todo mundo. (...) Agüentava, tranqüilo, aquelas nega veia agüentava. Pra que você pensa que eles mantêm a Ala das Baianas? As bonequinhas só rebolam, as baianas seguram o repuxo. É nega acostumada a cantar em terreiro. (...) A primeira escola de samba foi a Lavapés, da Madrinha Eunice, que está viva até hoje, com 82 anos ainda está comandando a escola dela. Sua benção, Madrinha Eunice, pioneira do samba em São Paulo, axé, minha tia.”

“O Cordão do Vai-Vai! Eu gostava de ver o Cordão do Vai-Vai. Cordão é uma modalidade diferente. Por sinal, só teve em São Paulo e Rio Grande do Sul. É batuque pesado, mas a divisão na boca é marcha. A gente chamava de marcha sambada. O carioca está fazendo hoje, mas a gente já fazia antigamente. É a marcha sambada. (...) Não é bem que eu fiz para varias. A minha bandeira é a bandeira do samba. Na escola em que eu estiver, eu defendo ela mesmo pra valer, ta me entendendo? Lá no Peruche, eu tive a felicidade de apresentar enredos e ganhar o samba, nessa altura o samba já estava na cabeça e ninguém ganhava mesmo. Tradições e Festas de Pirapora é exatamente onde o pessoal saía daqui pra fazer o samba lá, em Pirapora, porque ali estava proibido e era permitido lá nas festas de santo.”

Seu samba-prece Silêncio no Bixiga, homenagem ao amigo Pato N´Agua, morto misteriosamente, até hoje é um hino de todos os sambistas paulistanos:

Silêncio, o sambista está dormindo
Ele foi, mas foi sorrindo
A notícia chegou quando anoiteceu
Escolas, eu peço o silêncio de um minuto
O Bixiga está de luto
O apito de Pato n'água emudeceu

Partiu, não tem placa de bronze

Não fica na história
Sambista de rua morre sem glória
Depois de tanta alegria que ele nos deu
Assim, um fato repete de novo

Sambista de rua, artista do povo
E é mais um que foi sem dizer adeus.

“O samba vai bem, as escolas vêm se desenvolvendo, vêm crescendo. Mas eu estou sentindo que eles estão esquecendo do samba, a origem, a raiz, o pé no chão, aquele samba bonito que o povo canta junto com as escolas. Faz já um certo tempo que eu não ouço o povo cantar com uma escola. Pegar um samba, logo que a escola entrar, cantar as três vezes, sem bateria. Quando ela entra na passarela, o povo tai cantando junto. Então estou sentindo falta disso. Eles não estão muito preocupados com isso. Estão preocupados com o visual, com aquela coisa toda. Mas ele continua crescendo.”

Que gente é essa

De pé no chão

Que tem no canto

Sua forma de expressão?

Canto na travessia

O seu triste lamento

Para amenizar

Tanta dor e sofrimento

Que canto lindo

Na plantação

O rei escravo cantou

Na mineração

Rezou cantando

Ao pai Oxalá

Agô-gegê e iorubá

Eparrei!

Oiá oiá vem nos ajudar

Kaô Kaô Kaô iorubá

Depois surgiu Palmares

Sua confederação

E um canto livre

Vem lá do sertão

Cantou na capoeira

No tronco cantou e gemeu

Ela cantando embalava

Um filho que não era seu

Hoje essa gente sofrida

Vem dos morros e favelas

Mas traz um canto divino

Que ilumina a passarela. Quem é?

É o canto negro, sinhô

É o povo negro, sinhô

É a liberdade, sinhô.

sábado, 5 de dezembro de 2009

Seu voo paralelo

Para Daniela

Quando o verso se propõe
Em transparência e peso,
Muitas palavras são
Naufrágios de outros sítios.

Gosto de pássaros.
Por isso minha retina seca
No seu voo
Paralelo.
Me faz um pouco de asas
Do verão que agora nasce.

O tempo é verde.

Plantarei um dia o tempo no mar.
E brotará doce e triste
O brasil dos seus olhos.

Tão
Lento que me afoga
Nessa rede de descanso,
Vento que me afaga
No sal branco do rochedo.

Tenho, sim, mãos de colher palavras.
Mas a dor delas reunidas
Invade minha vida
No plantio agudo
Do eito contra as águas.

Essa noite
Dormirei
Ao seu lado
O arado da manhã.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Uhuru (palavra para dizer Liberdade, em yorubá)

(Para a geografia do menino, e à memória de suas marcas no chão.)


Vestido com as armas de Jorge
Estilete com dois lados.

Assim é a roupa que separa
Classifica e disfarça.

O respeito de pai não se herda.
Mas tomam o sangue do povo na taça.

E em todo proletário em guerra se tem uma ameaça.
Pois a fome não se cala.

Nos classificam, nos denominam, nos separam por raça.
Mas há os que não se abaixam.

Os pratas da casa que pregam a palavra pra conter a arma.
- e com o intuito do guerrilheiro que usa a alma e a espada.

Há um detalhe que não passa: a farda.

Somos um lado da guerra
E de predadores temos tudo.

A maldade, o sofrimento, as armas
e a raiva da caça.

Ferréz.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Sono tranquilo

Meu leiteiro tão sutil /de passo maneiro e leve - Drummond


O vento colhe a vela.
O mar recolhe o verso.

Meu país dorme com tiro.

O menino voa pelos varais.
Riscos na noite não são
Riscos de estrelas.

O fim do morro vê o horizonte
E os pássaros lá deixados.

A paisagem desesperada desmente
O que se propaga à nação.

O país cai. Toda tarde.

E a noite propõe escape
Longe das armadilhas.

Toada da tarde.

Mas desta, o menino não escapou.

Ao lado dos chinelos,
A geografia do seu corpo
Ensina...
É mapa aberto no chão.

Apaguem as estrelas.
O fim do morro recorta o oceano.
E o pássaro lá deixado.

O país está dormindo agora.
Está dormindo com um tiro.

domingo, 15 de novembro de 2009

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

cheiro amargo de uvas

Capitão do mato tá me procurando

com olhos de ver beleza aclareada de águas
ouro em pó nos requebros
mel nas pupilas e nos seios
suavidade nos passos

não me acha não.

Aqui desse lado da margem
as águas são mais turvas
beleza tem que cavucar
bem fundo
bem fundo
devagar.

(meu avô tem cabelos brancos
minha avó tem cabelos brancos).

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Quilombo São José



Quilombo dos Palmares

“Publico aqui texto lançado em Fevereiro de 1996 no zine Não Racismo, de minha autoria.”

No passado ano de 1995 foi comemorado, no dia 20 de Novembro, os 300 anos da morte de ZUMBI DOS PALMARES, data na qual a partir da década de 80 vem sendo comemorado o “Dia da Consciência Negra”, ofuscando o 13 de Maio da Libertação dos Escravos, assinado pela princesa Isabel, o que realmente não passou de pura sacanagem. Em primeiro lugar nem deveria haver escravos, em segundo a liberdade dada a eles nada mais era que pura obrigação e em hipótese alguma poderia ser considerado um ato de humanidade, ainda mais se levando em conta que os escravos libertos foram largados a margem da sociedade, ficando em situações piores às quais se encontravam antes. Os resultados desta exclusão podem ser observados atualmente em nosso país, onde a maioria da população pobre e miserável é constituída de negros e mulatos.

O Quilombo dos Palmares, embora os livros de história não digam, foi o primeiro país livre das Américas, pois ali foi estabelecida uma sociedade onde todos os homens eram livres, como alias deve ser constituída uma sociedade de seres civilizados. Palmares começou a surgir em 1597 e durou até 1694, seu território se estendia por 150 quilômetros de comprimento e 50 de largura, nos Estados de Alagoas e Pernambuco. Sua população variou muito em 100 anos, relatos iniciam em 6.000 habitantes chegando até 30.000. No auge, Palmares teve nove cidades ou mocambos, em moldes africanos, a confederação constituía um Estado. Cada mocambo tinha seu chefe, juntos, eles elegiam o rei do Quilombo. Em caso de ataques ou expedições guerreiras, as forças dos mocambos se uniam. Sua sociedade era multirracial, com a presença de negros, índios e brancos pobres. Eles fabricavam armas e ferramentas com a metalurgia trazida da África, plantavam milho, fumo, batata e mandioca. Também faziam comércio com os seus vizinhos, trocando a produção por tecidos, sal, ferramentas, armas e munições. Enfim os escravos trazidos da África eram tão bem ou até mais organizados que os seus senhores portugueses e não um bando de macacos como se insinua nas escolas com sua educação racista.

Mais de 4 milhões de escravos chegaram ao Brasil entre 1531 e 1855, eles eram trazidos em navios que vinham superlotados, chamados de “TUMBEIROS” porque boa parte da “carga” morria na viagem. Os escravos eram utilizados para trabalhar nas plantações e como empregados domésticos. A vida do escravo doméstico poderia ser menos terrível dependendo de seu senhor. Já os escravos empregados na colheita de cana trabalhavam até morrer, sua media de “vida útil” variava entre cinco e no máximo dez anos. Seguem as conseqüências do trabalho e dos castigos no corpo dos escravos relatados pelo antropólogo Gilberto Freyre:

- Por excesso de trabalho: “Deformações das pernas e da cabeça, algumas das quais devem ser atribuídas ao hábito das mães escravas trazerem os molequinhos de mama escanchados às costas durante horas de trabalho. Vários negrinhos, meninos de 10, 12 anos, já aparecem de croa na cabeça (...), feita à força pelo peso de carretos brutos: tabuleiro, tijolo, areia (...).”

- Por castigos: “Numerosos os que apresentam, nas coxas ou nas costas, letras, sinais ou carimbo de propriedade, como hoje o gado; (...) uns manquejando, os quartos arreados em conseqüência de surras tremendas; outros com cicatriz de relho pelas costas ou nas nádegas; ou então cicatriz de anginho, de tronco, de corrente no pescoço, de ferro nos pés, de lubambo no tornozelo.” Obviamente eram os escravos da colheita os que mais fugiam, por isso qualquer sinal de rebeldia era punido. Depois das chicotadas, os escravos recebiam um coquetel de sal, limão e urina nas feridas.

Em resumo a escravidão acabava com toda a condição humana dos escravos. Os negros perdiam a liberdade, a língua natal, os costumes e até a identidade, misturados com vários povos africanos. Os escravos perderam tudo, até a possibilidade de se reconhecerem. Nos quilombos podiam viver por conta própria e recuperar um pouco sua identidade, praticando um pouco mais os seus costumes.

Importante ressaltar que os sacerdotes cristãos da época opinavam que o principal motivo da aquisição dos negros era o de trazê-los ao conhecimento de Deus e à salvação, então seus donos deviam levá-los a igreja e instruí-los na religião cristã. Infelizmente não era bem esse o objetivo real da aquisição dos negros e a Igreja Católica nunca fez nada para tentar impedir este verdadeiro massacre em massa que foi executado durante Quatrocentos Anos e até se utilizou da escravidão em proveito próprio.

Zumbi quando foi capturado em Palmares, em 1655, era recém-nascido, foi entregue ao padre Antônio Melo, que o batizou como Francisco e o educou. Aos 10 anos de idade já sabia todo o latim e bom português. O padre em cartas comentou sua inteligência e teria sido até coroinha. Em 1670, com 15 anos, Francisco fugiu para Palmares, por não aceitar a escravidão. O padre relata em cartas que, anos depois, o rei Zumbi veio visitar-lhe por três vezes.

Palmares resistiu a mais de trinta expedições, no decorrer de noventa anos. Sempre usando da tática de guerrilha, abandonar o local destruindo tudo que houvesse por ali e lançar emboscadas, depois desapareciam na selva. Até que em 1678, as autoridades resolveram propor conciliação. O rei Ganga-Zumba foi a Recife firmar pacto de paz com o governador de Pernambuco. O pacto previa a deposição de armas dos quilombolas em troca da concessão de terras e da liberdade. A alforria só seria concedida aos negros nascidos no quilombo. Os outros retornariam ao cativeiro. O pacto dividiu Palmares, Zumbi tornou-se o líder da resistência ao acordo, por ele excluir os não nascidos em Palmares. Ganga-Zumba, seguido por seus homens, entre eles importantes chefes militares, mudaram-se para Cucaú, onde a iniciativa de convivência com os moradores da vilas próximas não deu certo. Em 1680 um partidário de Zumbi envenenou Ganga-Zumba. A partir de 1678, Zumbi tornou-se o líder de Palmares e impôs um forte esquema militar a vida do quilombo.

Em 1.687 o governador de Pernambuco fez o primeiro contato com Domingos Jorge Velho, bandeirante paulista que se comprometeu a destruir Palmares. Os bandeirantes são descritos nos livros escolares como heróis que ajudaram a expandir o território nacional, porem sua principal atividade era matar, combater e escravizar índios, usar índias para seu prazer e também aproveitavam para assaltar fazendas e roubar gado. Sua imagem é a de senhores patriarcais, com botas altas, casaco e chapéu; na verdade eles eram mestiços pobres e maltrapilhos, que falavam mais tupi do que português. O bispo de Pernambuco o descreveu assim “Esse homem é um dos maiores selvagens com quem tenho topado. Quando se avistou comigo trouxe consigo intérprete, pois nem falar sabe. Não se diferencia do mais bárbaro tapuia. Lhe assistem sete índias concubinas e sua vida, até o presente, foi andar metido pelos matos à caça de índios e índias”.

Jorge Velho que se encontrava em Piauí veio até São Paulo para montar sua tropa e voltou para o Nordeste numa caminhada espantosa de 6.000 quilômetros, na volta que durou um ano, 196 homens morreram e 200 desertaram. Quando chegou tinha sob seu comando 1.000 homens de arco, 200 de espingarda e 84 brancos que os comandavam. Porem recebeu a ordem de combater os janduis que se rebelaram na Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceara, e estavam dando muitos problemas aos sertanistas. Então lá foi Jorge Velho e causou todo estrago que pode “penetrando lá com a sua gente o interior da campanha queimou as principais aldeias e degolou toda a nação que nelas estava”, elogiou, o governador geral do Brasil. O arcebispo da Bahia também felicitou-o mais tarde por “haver Vossa Mercê degolado 260 tapuias”. Como se o fato de matar os índios que tiveram suas terras invadidas e por isso se rebelaram fosse algo grandioso e não odioso como era na realidade.

Após esta batalha Jorge Velho comandava 600 índios e 45 brancos aos quais se somaram tropas locais num total de 200 homens, estando acampados próximos a Macaco, alguns soldados que deixaram o acampamento para caçar foram atacados pelos Palmarinos. As colunas pernambucanas debandaram, esta primeira derrota ocorreu em 1.692. Com novos reforços - 100 homens comandados pelo paulista Manuel Navarro - Jorge Velho deu duas investidas contra os Palmarinos que conseguiram repelir os atacantes, batido pelos negros ele fez uma retirada estratégica. Voltou para o litoral e planejou sua vingança.

No confronto final se reuniram entre 3000 e 9000 homens, conforme relatos diversos, incluindo a tropa dos paulistas e as forças locais. Chegando a Macaco, que ficava no alto de um morro de 550 metros de altura, defendido por mato fechado, que tinha na retaguarda um precipício que oferecia proteção natural. Á frente, levantavam-se três estacadas semicirculares de pau e pedra, antecedidas de fossos camuflados com vegetação onde toras pontiagudas podiam empalar um homem. A solução para os ofensores foi fazer uma cerca de pau a pique para se proteger. No primeiro ataque, dia 23 de janeiro de 1.694, em três frentes, os atacantes foram rechaçados tanto a “armas de fogo e flechas disparadas dos baluartes, como a água fervendo e brasas acesas lançadas pela estacada”. No dia 29, outra investida teve o mesmo desfecho. No intervalo entre os dois ataques, Jorge Velho pediu canhões ao governador, chegaram seis, número grandioso em tempos coloniais.

A solução para se aproximar da paliçada foi a construção de uma cerca obliqua, que se ergueu durante a noite. Ao raiar o dia 5 de fevereiro, Zumbi ao descobrir a contra cerca dos atacantes teria dito “Amanhã seremos entrados e mortos, e nossas mulheres e filhos cativos”. Na madrugada da noite seguinte aproveitando uma brecha na contra cerca, próxima a um penhasco e de cerca de 15 metros, lançaram um contra-ataque, provavelmente apenas tentando uma fuga desesperada. Eram 2 horas da madrugada quando ele investiu, o banho de sangue começou naquele instante. Os atacantes reagiram à bala. “Se lhes deu uma carga de espingardaria, aos que estavam já da parte de fora da cerca, donde se mataram muitos e foram tantos feridos, que o sangue que iam derramando serviu de guia às nossas tropas que os seguiram”, contou exultante o governador. Muitos, cerca de duzentos, encurralados, caíram no despenhadeiro. O massacre continuou no dia seguinte, restaram do combate 510 negros feitos prisioneiros. Somente mulheres e crianças foram poupados, muitas mulheres mataram seus filhos para livrá-los do cativeiro e se recusaram a comer, morrendo de fome. Depois de 22 dias de resistência, Macaco havia tombado. Ao receber a notícia, no Recife, Melo e Castro mandou rezar uma missa de ação de graças, jogou dinheiro da janela do palácio para o povo e autorizou que se acendessem luminárias durante seis dias, em Olinda e Recife, em sinal de regozijo. Como se dizimar pessoas inocentes fosse um ato para ser celebrado. Nos meses seguintes, as outras povoações, menos defendidas que Macaco foram destruídas, uma a uma. Palmares sumiu do mapa.

Em dezembro de 1.694 surgiu a noticia que Zumbi estava vivo. Em setembro de 1.695, um dos bandos de Zumbi é emboscado e Antônio Soares, homem de confiança de Zumbi, aprisionado. Em novembro ele cai nas mãos do capitão paulista André Furtado de Mendonça, após muita tortura delata o paradeiro de Zumbi. Antônio Soares conduz um grupo de 15 bandeirantes paulistas até a Serra Dois Irmãos. Zumbi estava acompanhado de seis homens no combate derradeiro. Zumbi não caiu sem luta. Quando se viu emboscado, “pelejou valorosa ou desesperadamente, matando um homem, ferindo alguns e não querendo render-se nem aos companheiros, foi preciso matá-los”, contou o governador. Era 20 de novembro de 1695. Despachado para Porto Calvo, o corpo de Zumbi, estava cruelmente mutilado, exibindo “quinze ferimentos de bala e muitos de lança, vendo-se ainda que membro da virilidade do dito negro se havia cortado e enfiando na boca, também lhe faltando um olho e se lhe cortara a mão direita”. A sua cabeça fora cortada, tratada em sal fino e enviada a Recife para ser exposta no lugar mais publico, como seria feito séculos afora, de Tiradentes a Lampião.


quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Homenagem a Clara Nunes



Verdadeira celebração do samba em homenagem a Clara Nunes
Dá para sentir a perfeita sintonia entre todos os presentes!

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Chico Science






Livro do Desassossego, post. I

Vivo sempre no presente. O futuro, não o conheço. O passado, já o não tenho. Pesa-me um como a possibilidade de tudo, o outro como a realidade de nada. Não tenho esperanças nem saudades. Conhecendo o que tem sido a minha vida até hoje — tantas vezes e em tanto o contrário do que eu a desejara —, que posso presumir da minha vida de amanhã senão que será o que não presumo, o que não quero, o que me acontece de fora, até através da minha vontade? Nem tenho nada no meu passado que relembre com o desejo inútil de o repetir. Nunca fui senão um vestígio e um simulacro de mim. O meu passado é tudo quanto não consegui ser. Nem as sensações de momentos idos me são saudosas: o que se sente exige o momento; passado este, há um virar de página e a história continua, mas não o texto.

Breve sombra escura de uma árvore citadina, leve som de água caindo no tanque triste, verde da relva regular — jardim público ao quase crepúsculo —, sois, neste momento, o universo inteiro para mim, porque sois o conteúdo pleno da minha sensação consciente. Não quero mais da vida do que senti-la a perder-se nestas tardes imprevistas, ao som de crianças alheias que brincam nestes jardins engradados pela melancolia das ruas que os cercam, e copados, para além dos ramos altos das árvores, pelo céu velho onde as estrelas recomeçam.

Bernardo Soares.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Sentido


"De longe, seus olhares observam.
De longe, quem olha não vê.
Nem santos,
Nem demônios.
O rufar dos tambores novamente... será que "eles" ouvem?
O olhar fascinante.
A sombra...
...não existe.
O poder que sinto se aproximar.
Os perdidos no vendaval da vida..."

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Antônio da entrada do mato

Conforme o gosto das coisas
Deixo a onda bater na nau.

E nave arremetida
Contra o rochedo
Sabe da calmaria de sua íris
Chamando o sol.

O poeta cata conchas no chão.

Preguiça ter o corpo posto ao vento
Fazer dos sentidos
A mão única do meu pai passado
Pai das águas
Consertando sinos
Da infância
Para a dor
Fugir ao dobre
Triste.

O poeta esquece conchas no chão.

Antônio caboclo
Da entrada do mato
O pito pendendo o mundo.
No seu jeito indígena de olhar
Sempre sempre
Me pareceu negro
De tão sábio...

Apontava Tatetu
No começo da noite.
Tinha luzes no fim de tudo.

E o mato - eu não sabia! - era o oceano.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Passagem





Esta é a crise que eu sabia que viria,

Destruindo o equilíbrio que eu mantinha.

Duvidando e perturbando e invertendo a direção,

Imaginando o que virá depois.

É este o papel que você quis viver?

Eu fui um tolo por pedir tanto.

Sem a guarda e proteção da infância,

Tudo se despedaça ao primeiro toque.

Observando o carretel à medida que se aproxima,

Brutalmente tomando seu tempo,

Pessoas que mudam sem razão alguma,

Está acontecendo o tempo todo.

Posso seguir adiante com essa série de eventos?

Perturbando e purgando minha mente,

Recuo das minhas responsabilidades,

quando tudo tiver sido dito e feito

Eu sei que perderei todas as vezes

Avançando nos caminhos dados por nosso Deus,

A segurança é presidida pelo fogo,

Santuário destes sorrisos febris,

Deixados com uma marca na porta.

Este é o presente que eu quis dar?

Perdoe e esqueça o que eles ensinam,

Ou passe pelos desertos e devastações uma vez mais,

E observe como eles caem pela praia.

Está é a crise que eu sabia que viria,

Destruindo o equilíbrio que eu mantinha.

Virando-se para o próximo conjunto de vidas,

Imaginando o que virá depois.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

França negada

Para Jairo, nego da luta

Eu preciso fazer um poema
que me cale todos os versos.
E nenhuma metáfora dentro
venha desfolhar a noite
correndo risco de estrela

fugidia

escapada.

Ah, cortar de mim todo poema
e não mais ter no mundo
inquieto
a onda deixada de maneira...

E ginga,
Amplo nos terreiros-capoeira,
o lance no ar plástico
da suposta ação estática
a linha dos pés em voo.

Pauta não escrita
a quero nua
para uma nova história

dos seus movimentos

dos seus movimentos

dos seus movimentos!

A ponta da agulha em jogo
aponta para a madrugada.

E lá está o caminho das águas!

Águas de chegar,
caçado,
sequestrado,
torturado,
assassinado.

Eu preciso que me cale todo o verbo.
Porque amo o silêncio da noite
passada ao lado
da senzala.

O jeito de parar o mundo quando não fala.
O ponto final das coisas que começam...

Eu preciso que me cale todo o verbo,
Porque amo esse traço de brasa
nós pés

dor e vi0lência
divisão e violência
corrente e violência

como secar mudo o orgulho de palavra solta?

Três vezes!

Três cores em uma bandeira

em três palavras revolucionárias

continuam singrando o caminho imposto

Das águas,
das lágrimas,
dos seus olhos tão oceano,
meu resgate.

Ah, capoeira, dance no convés para que nos guie na maré bruta
e sem sentido.

As palavras adormecem três revoltas no mar.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

domingo, 11 de outubro de 2009

Monsueto

Para meus males

Eu não sou água
Pra me tratares assim
Só na hora da sede
É que procuras por mim
A fonte secou
Quero dizer que entre nós
Tudo acabou
Teu egoísmo me libertou
Não deves mais me procurar
A fonte do meu amor secou
Mas os teus olhos nunca mais hão de secar
(...)
Eu vou te dar a decisão
Botei na balança
E você não pesou
Botei na peneira
E você não passou
Mora na filosofia
Pra que rimar amor e dor
Se seu corpo ficasse marcado
Por lábios ou mãos carinhosas
Eu saberia, ora vai mulher,
A quantos você pertencia
Não vou me preocupar em ver
Seu caso não é de ver pra crer
Ta na cara
(...)
Se você não me queria
Não devia me procurar
Não devia me iludir
Nem deixar eu me apaixonar
Evitar a dor
É impossível
Evitar esse amor
É muito mais
Você arruinou a minha vida
Me deixa em paz
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quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Lua


Quando no Céu surgis brilhante.
Estendendo pelo mundo teu manto elegante.
Deixa-me pensativa e estonteante,
Com tantas lembranças, já bem distantes.
De um passado, onde eras venerada pelos amantes.

Quantas juras de amor ouviste.
Mil beijos e abraços apaixonados assististe.
Com teus raios deslumbrantes.
Deixaste os apaixonados delirantes.

Hoje te vejo com amor e respeito.
Pois desde criança, sinto emoção dentro do peito.
Ao admirar teus encantos, teus traços perfeitos.
Nas noites claras, enfeitiçadas pelos teus efeitos.

Lua, eterna amiga, nas minhas noites solitárias.
Que não são poucas, são várias.
Procuro em ti, afastar tristes pensamentos.
Deixo-me levar por doces momentos.
Cheios de encantos e embevecimentos.

Vejo-te sorrir como antigamente.
Como na minha infância, que estavas sempre presente.
Nas noites alegres, lindas e quentes.
Quando eu brincava muito feliz e contente.
Sob teu clarão, bem evidente.

Lua, eterna amiga dos apaixonados.
Lua, sempre conselheira dos desencantados.
Lua, companheira fiel, dos desesperados.
Que se encontram, dos seus amores separados

Lindamar Cardoso de Melo

Passaros

"PASSAROS"
Desde sempre os conhecemos. Em bandos ou solitários, nos campos, nas praias, nas cidades, os pássaros lá estão. Espiam-nos, chamam-nos, provocam-nos. Às vezes rasam-nos o corpo, sem se deixarem tocar. Cantam para nos acordar, gritam à procura do asilo nocturno ou aparecem de noite a piar tristezas. Louvam a vida e pressentem a morte. Habitam os troncos das árvores ou as moitas rasteiras ou as fragas nas alturas. Mergulham até ao peixe ou debicam as searas. Sabem tudo do vento e das tempestades. Livres, livres. Tão alto subindo, tão alto, são a nossa inveja, a medida da nossa pequenez. Nunca os poetas os ignoram. Ilustram-lhes os versos ou são os próprios versos. Quem pode imaginar um mundo sem os pássaros?

Licínia Quitério

Billie, Deusa, Lady ...



segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Estrada-maré

Para meu bem

Por que saio sempre
Com vontade de ficar?
No gosto, na pele, no corpo.

Que faculdade desse teu país alheio
Me fez esquecer a tristeza
Em roda desde há muito no vento?

Por que saio no que sei
Que permaneço?
E faço do giro de outros sítios

A ponta para o caminho,
Estrada que navego,
De encontrar ao fim

A porta de onde parto?
Ah deixar espaços
Terras minhas conhecidas...

E vem a vela do que escrevo
Singrar o tardio mar
Dos teus olhos.

Ah fazer da rede o tempo
De adormecermos à sombra das árvores
( no espaço não retirado )

A terra devoluta do latifúndio
Que tua boca ocupa.
Para dividir, forçar a divisão

Do ato de amar e deixar partir
O barco que volta e volta
Ao cais onde plantaste

Os peixes.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Clichê

Um aboio cumprido de pássaro preto
(co)move a travessia

Sem repente
nem enredo

Dilata meu zinco.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Johann Sebastian Bach "Matthaus Passion" - 1. Coro: Kommt ihr Toechter


Durante o coro de abertura da Paixão Segundo São Mateus formaram-se à minha frente verdadeiras montanhas de dor.

Rainer Maria Rilke, 1920

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Können Tränen meiner Wangen




Johann Sebastian Bach é o começo e fim de toda a música [...] Como fenômeno criador, ele representa o fim de uma época da história da música, o barroco, mas também mais do que isso: Bach é a síntese de toda a música que o precedeu e é, sem dúvida alguma, a chave para toda a música que veio depois.

Günther Ramin, 1954

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Vida


"Num vale onde precipícios são floridos e
nossos sonhos enterrados como sacrifício aos deuses,
o vento sopra com fragilidade nos cabelos.
Nunca despetalaram em vão uma flor.
Mas já desmancharam os desenhos das nuvens por pura satisfação."

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Cordel do Fogo Encantando



Um sopro histórico de MPB. (6ª. Parte)

“Eu era menino
Mamãe disse: vamos embora
Você vai ser batizado
No samba de Pirapora
Mamãe fez uma promessa
Para me vestir de anjo
Me vestiu de azul-celeste
Na cabeça um arranjo
Ouviu-se a voz do festeiro
No meio da multidão
Menino preto não sai
Aqui nessa procissão
Mamãe, mulher decidida
Ao santo pediu perdão
Jogou minha asa fora
Me levou pro barracão
Lá no barraco
Tudo era alegria
Nego batia na zabumba
E o boi gemia
Iniciado o neguinho
Num batuque de terreiro
Samba de Piracicaba
Tietê e campineiro
Os bambas da Paulicéia
Não consigo esquecer
Fredericão na zabumba
Fazia a terra tremer
Cresci na roda de bamba
No meio da alegria
Eunice puxava o ponto
Dona Olímpia respondia
Sinhá caía na roda
Gastando a sua sandália
E a poeira levantava
Com o vento das sete saias
Lá no terreiro
Tudo era alegria
Nego batia na zabumba
E o boi gemia
Lá no terreiro
Tudo era alegria
Nego batia na zabumba
E o boi gemia.”

Esta letra é apenas uma das grandes obras de Geraldo Filme, conhecido como Enciclopédia do Samba Paulistano, sinônimo da auto-afirmação da cultura negra, “Seo” Geraldo, como os sambistas de todas as escolas respeitosamente o tratavam, teve passagem relevante como fundador, diretor ou colaborador, pela maioria das escolas de samba da cidade. A letra de Batuque de Pirapora é uma crônica da perseguição ao samba pela igreja católica em Pirapora do Bom Jesus, com ironia e talento ele criara um samba alegre e combativo, juntamente com Tradições e Festas de Pirapora, fez uma releitura do samba rural paulista, do qual a cidade foi o berço, essas músicas trazem elementos dos jongos, vissungos e batuques que aprendeu com sua avó, que entoava cantos do tempo dos escravos. Sua musicalidade também foi influenciada por seu pai que tocava violino nos choros e por sua mãe com quem aprendeu ritmo e dança.

O “negrinho das marmitas” como também era conhecido, já aos 10 anos de idade, fazia entregas para sua mãe que tinha uma pensão na Rio Branco, em frente ao palácio do governo, isso era 1937, ele e o Zeca da Casa Verde, que era filho de uma grande amiga de sua mãe, sempre andaram juntos, tanto que eles se consideravam parentes, cresceram, se formaram e viveram no samba. “Aí eu dizia: ‘Atravessa a fronteira’. Depois de entregar a marmita, ia onde estava minha gente. Era exatamente lá na Barra Funda, dividindo com os Campos Elíseos. Então ia pra Barra Funda e ficava lá no samba. (...) Lá no largo da Banana, na hora que folgavam um pouquinho, eles armavam um samba e a gente era moleque, ficava olhando os velhos, não deixavam a gente entrar na roda: ‘Sai daqui, moleque, chega pra lá’. A gente ficava apreciando ‘os coroas’ todos cantar e a gente guardou muita coisa e deu continuidade.” Geraldo Filme, Programa Ensaio, 1992.

“Minha avó não era brincadeira. Eu peguei um canto com a minha avó, que era o maior sarro. Dizia que as negas velhas escravas, quando nascia uma criança, entregavam pra elas como se fosse filha. Se a moça desse uma mancada então, elas sofriam demais. Então acontecia o seguinte: lá na senzala, enquanto a nega velha tomava conta da criança (como se fosse o partido alto hoje), os nego velho lá nas casinhas, no hora do samba, metia a bronca. Então eles cantavam um negócio assim:
Oi tiá, tiá, tiá
Oi tiá de Junqueira, tiá
Oi tiá, tiá, tiá
Ou tiá de Junqueira, tiá
Moça bonita
Delírio, tiá
Veja que coisa indecente, tiá
Deita sem estar casada, tiá
Fazendo vergonha pra gente, oi tiá.
Os negos cantavam e elas chegavam: ‘Pará com isso, zombando das meninas’. Então a tradução disso é que a escrava negra tinha que ir pra cama na marra e a moça branca ia por livre e espontânea vontade, e elas se sentiam mães daquelas crianças, elas é que ficavam envergonhadas.”

“A praça da Sé não foi fácil. Saía da Barra Funda e primeiro parava na praça Patriarca, era uma paradinha obrigatória, porque ali era a classe A da elite negra. Eram os clubes de negros que tinha, uns clubes enjoados, uns neguinhos cheios de tanta coisa. Dava um tempinho na Patriarca, passava na Direita e ai já começava a fazer samba nas latas de lixo. Ia subindo, tinha o Bar Café Viaduto. Enquanto eles tocavam valsa vienense lá, a gente fazia samba na lata do lixo do lado de fora. Chegava na Sé, João Mendes, ai a gente armava a roda do samba. ( ... ) A tiririca é o jogo da pernada. Naquela brincadeira, na época, não podia fazer samba na rua em São Paulo. Quem fazia samba ia em cana. Quem conseguia ia com uma moeda de dois mil-reis, que era dinheiro pra chuchu na época, no bolso, porque sabia que se cantava samba ia preso, pra pagar a carceragem. Tinha alguns policiais que tiravam sarro da gente. As meninas também entravam na roda, sambar, aquela brincadeira. Tinha um policial lá que tinha uma veia musical. Então ele chegava: ‘A cadeia tá suja! Vai todo mundo lavar’. Pelo menos ele cantava:
Vem cá, menino
Vem cá, menina
Ta tudo preso
Pra amanhã fazer faxina.
Levava a negada pra cadeia, de manhã lavava a cadeia e ia embora.”

E ele continua contando as histórias e mostrando toda a força do improviso do samba antigo paulistano, inclusive descrevendo melhor a tiririca, que faz lembrar-me dos agitos, nascidos na década de 1980, e até hoje praticados pela galera que curte um som pesado, um rock’n’roll mais visceral e dançam pogando, uma dança que também tem uma influência indígena.

“‘È tumba, moleque, tumba’ [cantando], isso ai, a gente brincava. Como não tinha instrumento, era na palma da mão, uma lata de lixo, caixa de engraxate, tudo que desse som servia. A gente armava a roda e ficava brincando de pernada até os homens chegarem. Quando os homens chegavam, acabava a roda. Era pra derrubar, brincadeira pesada mesmo. Eu caí, derrubei, cai também, não sou melhor do que os outros, não. Tinha uns caras da perna boa, não dava pra escapar da perna deles, não. Tinha vários: o Sinval, que está ainda hoje no Império do Cambuci, Guardinha, Pato N’Água, Perdigão. Tinha uma leva deles ai que, pra derrubar na roda, era difícil.”
continua .....

GOG - Programa Provocações (TV Cultura)



GOG - Assassinos Sociais

A lição meu irmão esta ai

Nos ataques a bomba
No genocídio em Huanda
Na pobreza no Haite
É triste mais eu vi
O clamor materno
Rogando logo o céu o inferno
Ao seu filho subnutrido
Que aos dezoito não pesava mais que vinte e poucos quilos
Mas de nada adiantava isso
Do outro lado do mundo seu futuro era decidido
Num café matinal entre políticos malditos
Parasitas cínicos
Assassinos sociais hé
Os poderosos são demais
Derramam pela boca seus venenos mortais
Poluindo a mente dos que são de paz
A gente segura atura estas criaturas
Como pode mas um dia explode
E a idéia sai (então vai)
Eu vou eu vou de vez
Vejam só vocês
No meu Brasil em ano de eleição
O que se vê pela periferia são
Palanques panfletos carros de som
Promessas em alto e bom tom de que as coisas vão melhorar
Mas como acreditar
Se os que prometem sempre estiveram lá
Prontos para nos trucidar
E pra complicar
Não são humildes morrem de preguiça
Só rogam o bem pra bem estar pra deus na missa
E mesmo assim não fazem jus
Não fazem o sinal da cruz
Desses eu gog sempre quer estar a anos luz
Acreditando no que creio há
E o que é mais feio
Pra eles o caminho do sucesso não importa os meios
Desses caras já estou cheio (então vai)

4x assassinos sociais
Hé os poderosos são demais

Você tem todo o direito de não acreditar
No que estou dizendo
Mas tem o dever de conferir
Pra ver a zona que está ai no parlamento
Metem a mão na cara dura no orçamento
Interferindo na vida de milhões
E não são dois nem três são mais de cem ladrões
Vou repetir quero mais adesões
Nos palanques seguem antigos padrões
Dizendo que são ricos
Que poderia estar cuidando da família do próprios negócios
E que por amor a nação
Adotaram a política como opção
Que ajudar os pobres é a missão
Mas quem são eles pra falar de amor
E preciso ter antes de mais nada ter noção do horror
Que é ver velhos vagando na madrugada das ruas
Com frio nas rugas
É preciso ver crianças
Pesinhos pequenos desde cedo na estrada
Esse é o preço pago vendendo dim dim picolé amendoim cocada
Pra sobreviver toda a iniciativa é válida
Mas é essencial sim ter escrúpulos honrar a palavra dada
E o que dói mais é ver muitos de meu povo
Caindo na cilada
Trabalhando em campanhas milionárias por migalhas
Empunhando bandeira no sol a sol
O corpo suado coração está do outro lado
Mas infelizmente a necessidade fala alto
A idéia é:
Trabalhando contra nós mesmo sempre sairemos derrotados
E enquanto isso o que eles fazem
Começam em Brasília a semana na quarta e encerram na quinta
Matam a segunda a terça a sexta
Mal político em qualquer canto do planeta
É um ante cristo um cisto a besta
A atração principal do telejornal
A procura de status investe no visual
Realmente eu sou um marginal
E quero ver sua cabeça seu oco seu mal
Bicho mesquinho
Vejo em seus olhos tochas de fogo luzindo
Nas suas costa azas vermelhas se abrindo
É só olhar pra eles e verá que não estou mentindo
Que não é vacilo delírio nem sonho
Mal político pra mim o pior dos demônios
Junta logo suas balas e vai

Strange Fruit

Billie Holiday

Composição: Abel Meeropol

Fruta Estranha

Árvores do sul produzem uma fruta estranha,
Sangue nas folhas e sangue nas raízes,
Corpos negros balançando na brisa do sul,
Frutas estranhas penduradas nos álamos.

Cena pastoril do valente sul,
Os olhos inchados e a boca torcida,
Perfume de magnólias, doce e fresca,
Então o repentino cheiro de carne queimando.

Aqui está a fruta para os corvos arrancarem,
Para a chuva recolher, para o vento sugar,
Par o sol apodrecer, para as árvores derrubarem,
Aqui está a estranha e amarga colheita.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Reverso



"O silêncio débil que transforma os momentos em dias,
e os dias em séculos.
Existe algo tentando quebrar o silêncio desta noite.
É uma voz que não se entende.
Vejo seres, muitos... mas não os tenho, não os quero.
Minha cabeça como uma bomba, pulsando.
Alimentando cada minuto com visões desorientadas e irreais,
talvez não tão irreal assim...
Mas continuo observando tudo.
Não há nada de novo.
Nada comigo.
Nem sons.
Nem imagens.
Nem movimentos.
Só uma combinação de sombras e luzes.
O suor continua me molhando.
Minha cabeça continua pulsando numa dor esmagadora.
Solidão.
Como se vive? Ou sobrevive?
Qual camuflagem usar quando meu Anjo perguntar qual a cor do meu dia?
Minha noite é negra, especial.
Mas meu dia é uma mistura, às vezes rubra, não sei que cor tem."
Neiva Corrêa
______________________________________________________

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Canto leve

Para Daniela

Não sei cantar cantos de pastores.
Meu mar está longe.
Mas peço a minha alma agrária
o curso desse rio.

Me leve aos peixes.

Baixo meus olhos porque inunda tanto
seu olhar de marés
quando a chuva cai
na terra possível dos meus sonhos.

Baixo meus olhos porque tenho a coragem

(não há medo quando a noite recolhe perto de mim sua pálpebra morna)

de deixar seu corpo descansar
nas palavras
desse vento
que me leva manso.

Me leve aos peixes.

Não tenho cantar de pastores
nem sua imitação.
Mas minha mão adormece no seu colo
e entendo o tempo do seu gesto
o plano escolhido do seu gesto
no limite das pequenas coisas que você rege
ordenando o caos
como quem corre livre o mundo
da sua casa.

Não há açoite em suas águas
somente a tarde
para me fazer surgir a noite.

Seu olhar,
golfinhos chorando
no campo tão feminino das ondas...

Ao longe, o mar sabe
que guardo cada pássaro
(desde a infância conheço sua ausência)
agudo, liberto,
na orla sentida dos seus versos.

Me leve aos peixes.

domingo, 13 de setembro de 2009

Salve as folhas


(...)Sem folha não tem sonho
Sem folha não tem vida
Sem folha não tem nada

Quem é você e o que faz por aqui
Eu guardo a luz das estrelas
A alma de cada folha (...)

Ouço o vento bater
Os galhos em minha janela
Traz consigo o perfume das flores
E me faz lembrar o cheiro dela
Tão distante se encontras
longe da minha mão
deixa-me triste
Só, com a solidão
Mas o vento veio
Nesse momento me visitar
Bate forte vento
Faz-me tentar não chorar
Penso que se pudesse
Pegava carona com o vento
Ia até você
Para diminuir meu lamento
Venha vento, venha
Me leve contigo ou leve um recado
Seja meu amigo
Digas que sofro
Mas é um sofrer em vão
Pois essa destinatária
Doou-se para outro coração
O que resta fazer?
Uma coisa é certo que farei
Apanharei antigas folhas trazidas pelo vento.
Limparei os cantos da alma
Deixarei minha "casa" limpa e cheirosa
Acredito que um novo vento virá.
E consigo um novo perfume.

Adilson Costa

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Baden Powell




É facil ser rapido, mas ter todo esse ritmo e musicalidade não é pra qualquer um.

Elomar Figueira Mello



VIOLEIRO

Vou cantá no canto di primero
as coisa lá da minha mudernage
qui mi fizero errante e violêro
Eu falo sério e num é vadiage
E pra você qui agora está mi ovino
Juro inté pelo Santo Minino
Vige Maria qui ôve o queu digo
Si fo mintira mi manda um castigo

Apois pro cantadô i violero
Só há treis coisa nesse mundo vão
Amô, furria, viola, nunca dinhero
Viola, furria, amo, dinhero não

Cantado di trovas i martelo
Di gabinete, lijêra i moirão
Ai cantado já curri o mundo intero
Já inté cantei nas portas di um castelo
Dum rei qui si chamava di Juão
Pode acriditá meu companhero
Dispois di tê cantado o dia intero
O rei mi disse fica, eu disse não

Si eu tivé di vivê obrigado
um dia i antes dêsse dia eu morro
Deus feiz os homi e os bicho tudo fôrro
já vi iscrito no livro sagrado
qui a vida nessa terra é uma passage
Cada um leva um fardo pesado
é um insinamento qui desde a mudernage
eu trago bem dentro do coração guardado

Tive muita dô di num tê nada
pensano qui êsse mundo é tudo tê
mais só dispois di pená pela istrada
beleza na pobreza é qui vim vê
vim vê na procissão do Louvado-seja
I o assombro das casa abandonada
côro di cego na porta das igreja
I o êrmo da solidão das istrada

Pispiano tudo do cumêço
eu vô mostrá como faiz um pachola
qui inforca o pescoço da viola
E revira toda moda pelo avêsso
i sem arrepará si é noite ou dia
vai longe cantá o bem da furria
sem um tostão na cuia u cantado
canta inté morrê o bem do amo.