segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Aniversário

Tenho uma palavra guardada
Mas move sem intenção
Seu percurso e sentido.

Às vezes nasce uma árvore
No vento que se resta em ânsia
Outras morre um segredo
Na água que se sussurra em peixe

Manso que corre os canais da minha terra.

Acendo um cigarro.
A vida é feliz pra quem?

A poeira sinto da estrada
O golpe tênue da viola.
Maria, por que chora o sítio
João, por que tanto a dor

Desse roçado de névoa
Dessa marmita do chão?

Tenho uma palavra nua
Que singra terna quando vejo
Mulheres e homens
Partilhando o alimento
Na calçada suja
E o cigarro de depois.

Os carros da avenida,
Os transeuntes satisfeitos,
Me põem só
Ponto no meio do sol insuportável da cidade.
E sequer percebem
Que essa é a minha gente.

Ainda que sua revolta seja surda
E tenha no silêncio seu primeiro e último grito.

Ah, poeira, sinto sua chegada.
Cobrirá a alegria daquele que pensa em paz
E sabe da próxima forma de nascer perfeito.

Ficarei com o defeito.

É mais humano
Mais triste
E não se declara.

No entanto, no campo largo da vida, é a única presença
De quem vê a luz
Depois do parto.

Um comentário:

aline disse...

É sempre tão bonito que dá vergonha de comentar.