segunda-feira, 11 de maio de 2009

Um sopro histórico de MPB (1a. parte)

Estou sempre discutindo o porquê da minha insistência e prazer em ouvir, conhecer e estudar os nomes históricos de nossa MPB, em que se destaca, ao meu ver, o Samba Carioca e o Paulista. Tentarei explicar esse porquê, começarei por uma simples relação e um pouco da história de alguns gênios de ritmo, voz, melodia e letra/poesia que surgiram entre as décadas de 20, 30 e 40.

Pixinguinha, o maior músico da história da MPB, tocava diversos instrumentos com desenvoltura, especialmente a flauta e o saxofone; escreveu dezenas de músicas, como, por exemplo, Carinhoso, uma das composições mais conhecidas e tocadas em nosso país; fez incontáveis arranjos durante o tempo que trabalhou como orquestrador para gravadoras brasileiras; foi quem transformou o chorinho num estilo musical, estilo comparado ao jazz estadunidense pela capacidade de improvisação.

“Mas eu acho que o choro, acima de tudo, assim, de uma forma parecida com o jazz, é um espírito, uma maneira de tocar, de frasear, de sentir a coisa da improvisação, por exemplo, que existe nas duas músicas, mas que é muito diferente numa e na outra. É, o choro tem muito mais... A improvisação é menos ... A improvisação no choro é uma coisa muita mais rítmica (...) Cada vez se descobre que ele é maior do que se pensava. E eu acho que isso é interessante pro brasileiro ficar mais ligado e também sentir um pouco uma dimensão mais ampla, mais universalizante da coisa, da figura, porque o Pixinguinha é grande demais, tem que ser muito estudado e muito tocado, tem muita coisa para fazer sobre esse assunto (...) E teve uma vida toda muito interessante. Eu acho que foi um sujeito fiel a tudo que gostava, que acreditava, a coisa das raízes africanas, foi o cara que fez a síntese do choro, um dos pais da orquestração no Brasil, um monte de coisas.” Henrique Cazes, Programa Ensaio, TV Cultura, 1993.

“Em 1971, um daqueles momentos que levavam seus amigos e considerá-lo santo: sua mulher, dona Beti, passou mal e foi internada num hospital. Dias depois, foi ele acometido de mais um problema cardíaco, foi também internado no mesmo hospital, mas, para que ela não percebesse que também estava doente, colocava um terno nos dias de visita e ia visitá-la como se estivesse vindo de casa. Dona Beti morreu no dia 7 de junho de 1972, aos 74 anos de idade, e ele no dia 17 de fevereiro de 1973.” Pixinguinha, Vida e Obra, Sérgio Cabral.

Pixinguinha gravou, em 1968, o disco intitulado Gente da Antiga, com a presença de João da Bahiana, um dos pais do samba, que foi quem introduziu o pandeiro no samba e um dos maiores ritmistas do prato com faca, que nada mais é que tocar um prato de barro com uma faca de serra, extraindo disso uma sonoridade ímpar. Nos poucos discos que conseguiu gravar, sempre privilegiou os ritmos africanos, gravando corimás, com algumas palavras em dialeto africano, pontos de macumba de sua autoria, macumbas como Sereia e Folha por Folha e ritmos afro brasileiros como Lamento de Inhançã e Lamento de Xangô. Se não bastassem esses integrantes, o disco contou com a presença imponente de Clementina de Jesus, a mais impressionante voz já existente na música brasileira, descendente de escravos, pode-se dizer que sua voz era a ligação entre a senzala e o samba, África e Brasil. “Ficou conhecida como a Rainha Ginga ou Quelé, a primeira homenagem foi dada devido a sua importância e grandeza na música popular, e a segunda devido à corruptela carinhosa de seu nome. (...) Seu pai foi mestre de capoeira e violeiro. Com a mãe, aprendeu os cantos de trabalho, partidos-alto, ladainhas e jongos, assim como corimás e pontos de macumba. Trabalhou muitos anos como empregada doméstica e somente aos 63 anos começou a carreira artística.” Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira. O disco foi gravado em apenas duas semanas, contava com músicas de domínio público que abordam temas das religiões africanas, sambas e choros consagrados, executados com maestria e total harmonia entre os músicos e cantores, pode ser visto como uma apresentação de luxo para quem quer conhecer os estilos, um dos maiores clássicos da MPB.

Noel Rosa, não o melhor, mas o mais importante compositor da música brasileira, pois antes dele o único tema das letras era o romantismo, escreveu canções que são regravadas até nos dias de hoje, como Com Que Roupa?, Feitio de Oração, As Pastorinhas, Feitiço da Vila e Filosofia. “Um sujeito que dizia: ‘Que vou fingindo que sou rico pra ninguém zombar de mim’. ‘Fingindo que sou rico ...’, porque ele era riquíssimo, arquimilionário, de inspiração, arquimilionário de amigos, de tudo. Noel era o próprio samba, Noel era a própria Vila Isabel. Ele imortalizou a Vila Isabel. E se imortalizou em suas obras.” Ciro Monteiro, Programa Ensaio, 1972.

O mesmo Noel, morto em 1937, com apenas 26 anos de idade, deixou mais de duzentas composições, muitas lançadas após sua morte. O Poeta da Vila se reunia num determinado bar preferido, na Guanabara, com o Rei da Voz, Francisco Alves, um dos três maiores cantores da nossa história, pragmático garimpador de compositores, que vivia pelos morros e escolas de samba, em busca de parceiros para seus lançamentos que sempre eram sucesso de público, o que ocorreu entre 1926 e 1952, quando morreu aos 54 anos, em acidente de carro. “Sua morte arrancou lágrimas no Brasil inteiro. Os seus restos mortais foram transportados para esta capital durante a noite, e no dia seguinte filas intermináveis passaram diante do seu esquife. Multidões compungidas, chorosas, saudosas do seu ídolo desaparecido.”, assim noticiou o Jornal do Brasil, em referência ao acontecimento.

Também era presença garantida, ao redor da mesa, nas noites distantes da boemia carioca, Ismael Silva, outro importante compositor, parceiro exclusivo de Chico Alves, durante os anos de 1928 a 1935; um dos fundadores da 1ª. Escola de Samba da história a Deixa Falar que depois se chamaria Estácio de Sá; que divide com Bide (Alcebíades Barcelos) o mérito de ter inventado o tamborim. “Chico Buarque o tem na condição de primeiro mestre. Vinicius de Moraes, que lhe exaltava na obra, em primeiro lugar, ‘aquela perfeita maciez melódica’, reputo-o ‘um dos três maiores do samba carioca’. José Lins Grunewald confirmava-o, ao lado de Sinhô e Noel Rosa, no ‘trio básico de sambistas puros da fase de ouro da nossa música popular.’ ” Moacyr Andrade, Ensaio, TV Cultura. Esta união produziu clássicos como Quem Não Quer Sou Eu, Adeus, A razão dá-se a quem tem, Não Tem Tradução.

Infelizmente, como boa parte dos compositores e ritmistas ligados as raízes de nossa musica, Ismael Silva morreu pobre e solitário em 1978 com 72 anos de idade. “Pois bem, então eu vivo sozinho, infelizmente, mas eu tenho planos feitos, não hei de ficar assim toda a vida, não. Inda tenho que me casar, mesmo assim(...) Sou negro e como negro devo achar meu caminho na vida. A libertação muito recente não modificou em nada nossa situação. Somos postos de lado nas escolas, nos serviços. A identidade que nos envolve é penosa e devemos lutar para preservá-la. (...) Anote ainda duas coisinhas mais aí: o samba provocou a substituição da música européia pela de origem africana, na sociedade brasileira e mais: quando é que a gente poderia imaginar que aquelas brincadeiras fossem dar nisso? Uma coisa de esquina encher avenida? Hoje isso não é mais escola. É universidade, é academia, é faculdade, sei lá! A festa maior. Que coisa! (...) Faço sambas, vivo na pendura – vou ser internado para uma cirurgia. Tenho 72 anos. Quando sair do hospital vou fazer o circuito universitário, me apresentar em shows, cair nas atividades. O velho sambista tem de lutar pela sobrevivência, não é? ” Ismael Silva, Programa Ensaio, 1973 e em depoimentos para livro.

Para enriquecer as partes do texto, sempre trarei uma letra, que se destaca em meio a tantas obras de arte. Tivemos diversos ilustres desconhecidos do “grande público”, como Cândido das Neves, um compositor e poeta negro de muitas qualidades, que morreu muito novo, de tuberculose, em 1934, deixando letras como A Última Estrofe, Lagrimas, Apoteose do Amor e Céu Moreno, que transcrevo logo abaixo.

Céu Moreno. Candido das Neves.

Vem ó musa, vem cantar ...
As glórias do Senhor
eleva o estro meu
Vem, ajuda-me a ensinar
a Deus fazer um anjo
da cor que Ele não tem céu.

Deus fizeste só então
nevados serafins
de olhares tão azuis
Deus, perdão meu Deus, mas esqueceste
não fizestes um anjinho
moreninho de áurea luz.

Senhor, deixai quando eu morrer
minh'alma em penitência
aqui mesmo sofrer
Não quero a vossa santa luz
só de anjos liriais
de olhares tão azuis.

Deixai que minh'alma em seu fervor
minore a sua dor
aqui entre os rosais
Deixai, deixai minh'alma entre as verbenas
entre as rosas bem morenas
moreninhas ideais.

Se São Pedro se enganasse
e um dia eu lá entrasse
sem mesmo Deus saber
eu poria em frente aos anjos
um turbilhão de arcanjos
morenos a resplandecer.

Mas um dia hei de tentar
e um anjo hei de levar
aos pés de Deus ... e enfim
hei de suplicar a Madalena
que também fique morena
que é formoso um céu assim.



4 comentários:

Paulinha disse...

Adorei o Blog...E muito obrigada pela dedicatória!
Saudades

Contradimento de Pensação disse...

Espero que vc em algum momento fale do bom e velho hardcore ae.
Você não é só fonte de mpb...
Tem muitas outras coisa que LUIZ CLAUDIO sabe, e sabe bem.
Ótimo blog...

Abraço

Peruzes

Ariel_GantZ disse...

Muito Bom!
Valeu Luiz, logo logo vou ler tudo com mais calma, mas finalmente parabéns pelo blogue.
Bob Vieira

isabela disse...

Ótimo Luiz, Perfeito! Lindas histórias de grandes nomes que jamais podem ser esquecidos! Adoreei!!