segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Meu pai

Essas galinhas que ciscam o tempo
Enquanto o chão passa sob os nossos pés.

Essas galinhas que tem o terreiro
Da vida por campo,
Que se movem com a linha seca do sol.

O alimento que lhes propõe a terra
Vence o tempo exato da precisão.

Quem lhes questiona o prazo de validade
A embalagem rompida
O teor nutricional
Daquilo que só se resume
Em presença no espaço da capoeira?

Vejo-as como quem vem marcado da chuva
Que cai fina, e goteja nos telhados
Sua canção triste.

E sei então que a vida se vai
Se vai
Solta no tempo.

Grãos partidos
Imersos na palha
Os riscos deixados
Procura aleatória.

Meu pai adormeceu no tempo de sua longa estrada.

E ficam apenas minhas mãos para a poesia
Que inseguras
Determinam a posição das palavras
E alongam o sítio
As árvores que descansam seu corpo
O alimento guardado e que escapou às aves.

Meu pai escondeu de mim as palavras
Para que eu procurasse
Por toda vida
(procura aleatória)
Para que eu me nutrisse
Do arado
Das cercas que deixou abertas
Do verso plantado
Entre sol e a chuva
Que agora fazem germinar seu sono.

2 comentários:

Mari Stumpf disse...

Você é unico.

Amo!

Vini disse...

Belo poema, Fiori. Abraço.