segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Breve Historia da MPB (5a. parte)

Quanto ao vocábulo “samba”, existem várias versões de seu nascedouro. Uma delas diz ser originário do árabe, mais precisamente mouro, quando da invasão desse povo à Península Ibérica no século VIII, sendo o termo original “Zambra” ou “Zamba”. Há quem diga que é originário de um dos muitos dialetos africanos, possivelmente do Quimbundo: “Sam” = dar, “Ba” = receber, ou ainda “Ba” = coisa que cai.

Vejamos o que diz Buci Moreira em depoimento a Fernando Faro, no Progama Ensaio, gravado em 12/12/1973. “Hilaria de Almeida, pseudominada [sic] Tia Ciata, porque foi ela quem fundou o primeiro rancho carnavalesco dentro do Brasil, chamava-se Rosa Branca. A minha avó era por sinal uma crioulinha muito bonitinha, sabe?

... Se eu fosse da época da minha avó, acho que a minha avó estava roubada, porque ela era uma belezinha de crioulinha, muito bonitinha e muito boa, distinta. Era da lei de candomblé, ela era mãe-de-santo. Aí ela chegou a curar inúmeras pessoas atrapalhadas de vida, doentes, pessoas doentes da alma; ela curava, ela tinha aquele dom... e, alias, ela me salvou, porque eu estive, em criança, desenganado dos médicos; ela me recuperou, foi ela quem me deu a vida. (...) Ah, inúmeros ... Aqueles boêmios todos da época andavam lá, os artistas todos da época. Pixinguinha, as vezes, ia e ficava em casa e não saia. A maioria chegava em minha casa e cismava de não ir embora pra casa, ficava ali mesmo. Lá tinha oito quartos, era grande pra chuchu! O João da Bahiana era permanente, a visita dele era permanente.”

Sua forma de tocar instrumentos de ritmo, que fez escola, e a maneira de dançar o samba “miudinho”, de forma magistral, que aprendeu com sua avó, tornaram-se sua marca registrada. Suas musicas foram gravadas por Francisco Alves, Mario Reis, Geraldo Pereira, Linda Batista, Carmem Miranda, Aracy de Almeida, Patrício Teixeira, entre outros. Seus principais sucessos são Não põe a mão, Quem Pode Pode, Não Precisa Pagar, Linda Tarde, Beijos, Festa na Roça, Porque é Que Você Chora, Anda Vem Cá.

O tamborim é que nós usava pesado ..., porque a policia repreendia na rua e os nossos pais repreendia ..., porque o samba é bom, e nós ficava nos quintais ‘tuco tico tuco tico tuco ...’, e aqui o couro comia, mas parece até que o samba ficou assim frenético devido as bordoadas que seus criadores recebiam, né?, pelos aplique, que a vara de marmelo comia... Porque naquele tempo era vara de marmelo, o jeito como que as nossas mães nos repreendiam... metia a vara de marmelo... e a gente às vezes saia pulando, mas aquilo no outro dia...

vinha o samba outra vez, cada um pegava um pedacinho de pau, uma coisa qualquer e pronto, ia batucando. E ai eu fiquei muito forte em ritmo. Em ritmo eu sou forte mesmo. (...) Isso de fazendo ritmo já vem de, de ... eu creio que eu já nasci fazendo ritmo ... dez anos depois do meu nascimento, eu estava ritmando.”

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Breve Historia da MPB (4a. parte)


Por um momento retorno a 1870, ano em que chega ao Rio de Janeiro, Hilaria Batista de Almeida, mais conhecida como tia Ciata, nascida no dia 23/4/1854, em Santo Amaro da Purificação, Bahia; cozinheira, sempre garantiu parte do sustento de sua família graças a seus famosos quitutes; fundou o Rancho Rosa Branca, um dos primeiros a existir no carnaval [rancho é o tipo de organização carnavalesca anterior a escola de samba]; filha-de-santo de João Alabá, de Omulu, como suas amigas tia Sadata (fundadora do Rancho da Sereia), tia Amélia do Aragão (Amélia Silvana de Araujo, mãe de Donga), tia Preciliana do Santo Amaro (Preciliana Maria Constança, mãe de João da Bahiana), tia Mônica, tia Bebiana e tia Gracinda (esposa do sacerdote islâmico Assumano Mina do Brasil). Em 1904 fixou residência na Rua Visconde de Itaúna, 117, em frente à Praça Onze, onde morou até morrer, em 1924. O casarão era uma legítima casa de cômodos, com seus 6 quartos, 2 salas, um longo corredor e quintal com árvores. Foi ali que escreveu seu nome como a figura de maior importância na criação do samba.

“A partir dos anos de 1870, na região que se estendia da antiga Praça Onze de Junho até as proximidades da atual Praça Mauá, compreendendo as antigas freguesias e localidades de Cidade Nova, Santana, Santo Cristo, Saúde e Gamboa constituía-se o núcleo principal da comunidade baiana na cidade do Rio de Janeiro, antiga capital do Império e mais tarde da República. Pólo concentrador de múltiplas expressões da cultura afro-brasileira, da religião à música, a região tinha como centro a ‘Pequena África’ (expressão usada pelo escritor Roberto Moura, baseado numa afirmação do artista Heitor dos Prazeres, segundo a qual a Praça Onze seria ‘uma África em miniatura’), berço onde se gerou o samba em sua original forma urbana.” Nei Lopes.

Tia Ciata realizava grandes festividades em sua casa, associadas às comemorações religiosas, pois também tinha sua casa de candomblé; desses festejos participavam todas as tias filhas-de-santo como ela, mais outras amigas como tia Veridiana (mãe de Chico da Bahiana), tia Dada, tia Josefa Rica e tia Tomásia, todas respeitabilíssimas Tias baianas, verdadeiros “úteros” geradores do samba. “Interessante notar que o tratamento 'Tia' é um misto de respeito e carinho usado para designar figuras que, pertencentes ao Candomblé, sobretudo de origem em Angola ou Congo, têm conforme preceitos religiosos, um certo grau ou muitos anos de iniciação, é um tratamento próximo ao de Mãe (Yalorixá).” A Mulher na MPB, Neusa M. Costa. Também eram presença garantida "os bambas" da época como Pixinguinha, Donga, João da Bahiana, Hilário Jovino Ferreira, Heitor dos Prazeres, Sinhô, Caninha, Didi da Gracinda, Marinho que Toca (pai do compositor Getúlio Marinho), Mauro de Almeida, João da Mata, João Câncio, Getúlio da Praia, Mirandella, Mestre Germano (genro de Ciata), China (irmão de Pixinguinha) e Catulo da Paixão Cearense. Foi neste ambiente, onde se juntavam fundadoras de Ranchos, conhecedoras de diversos ritmos e sons africanos, mães e avós de grandes compositores e ritmistas e esses “bambas” que nasceram, se criaram e tornaram parte deste meio, que surgiram diversos sambas, entre eles‘Pelo Telefone’, festejado como o primeiro samba gravado na historia.

“A figura de Tia Ceata surge nos textos como realmente a figura propiciatória, aquela que cria condições para que ajam as forças da Natureza, tal qual age a Mãe de Santo, Yalorixá, no culto africano: sua ação não é de criar ou gerar, ela própria, mas sim a de favorecer, de participar com seu instinto, ‘força de axé’ e conhecimento do ato de criação.” A mulher na MPB, de Neusa M. Costa. “Rancho que saísse e não fosse à casa da Asseiata, não era tomado em consideração, era o mesmo que não ter saído. Os sambas na casa de Asseiata eram importantíssimos, porque, em geral, quando eles nasciam no alto do morro, na casa dela é que se tornavam conhecidos da roda. Lá é que eles se popularizavam, lá é que eles sofriam a critica dos catedráticos, com a presença das sumidades do violão, do cavaquinho, do pandeiro, do reco-reco e do ‘tabaque’.” Na Roda do Samba, jornalista Vagalume.

sábado, 13 de novembro de 2010

Bastidor de palavras

Quando eu escrever
Meu último poema

Venha o sol cobrir
Toda palavra
Numa sombra tênue
Toda palavra
Que não costurei à luz.

À luz dos campos
Do meu Brasil.

Um homem a vida inteira atravessa
As palavras.
Sal de jangada
Na margem do rio imprime
O voo do pássaro.
A mão breve leva enxada
E água.

A vida vem no fim.

Quando eu escrever
Meu último poema
Porei o bastidor no mar.

Aves de agulha e linha
Terão no bico a imagem
E a bússola aguda
Apontará ao norte
A morte
Bordada no texto.

Palavra é sempre sempre
Peixe pescado na rede.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Breve Historia da MPB (3a. parte)

Para enriquecer as historias, destacarei algumas letras, que se destacam em meio a tantas obras de arte. Tivemos diversos ilustres desconhecidos do “grande público”, como Cândido das Neves, um compositor e poeta negro de muitas qualidades, que morreu muito novo, de tuberculose, em 1934, deixando letras como A Última Estrofe, Lagrimas, Apoteose do Amor eCéu Moreno, que transcrevo logo abaixo.

Céu Moreno. Candido das Neves.

Vem ó musa, vem cantar ...
As glórias do Senhor
eleva o estro meu
Vem, ajuda-me a ensinar
a Deus fazer um anjo da cor que Ele não tem céu.

Deus fizeste só então nevados serafins
de olhares tão azuis
Deus, perdão meu Deus, mas esqueceste não fizestes um anjinho moreninho de áurea luz.

Senhor, deixai quando eu morrer
minh'alma em penitência aqui mesmo sofrer
Não quero a vossa santa luz só de anjos liriais
de olhares tão azuis.

Deixai que minh'alma em seu fervor minore a sua dor aqui entre os rosais
Deixai, deixai minh'alma entre as verbenas
entre as rosas bem morenas
moreninhas ideais.

Se São Pedro se enganasse Ilustração por Julia Leonel
e um dia eu lá entrasse
sem mesmo Deus saber
eu poria em frente aos anjos
um turbilhão de arcanjos
morenos a resplandecer.

Mas um dia hei de tentar
e um anjo hei de levar
aos pés de Deus ... e enfim
hei de suplicar a Madalena
que também fique morena
que é formoso um céu assim.


terça-feira, 26 de outubro de 2010

Eles não usam Black Tie

Para quem não assistiu, vale muito a pena procurar e conhecer, pra quem já conhece rever nunca é demais !!!




terça-feira, 19 de outubro de 2010


"Não sei como se pode gostar de minha pintura. Porque minha pintura sou eu, e eu não gosto de mim."
Iberê Camargo

sábado, 16 de outubro de 2010

Acontece

A vida acontece é aos pouquinhos.
A morte também.

O que tenho calado aqui dentro
vem
na porção desse mundo
pequeno
que as pessoas tem medo de nomear.
A dor.

Por hoje o tempo escureceu.
E nas ruas
o vento
assobiou
assobiou tanto
que meu coração
sentiu a alegria
e quis colher palavras
que dormem no sábado de Itapetininga.

Por isso precisei caminhar.

Pra acordar as palavras
e que não saíssem tão secas
e fossem conforto e carinho
e silenciassem como os bois
figuram sua pose sem peso,

prendendo o tempo,
a posse do vento
e das coisas que se movem.

Mas as palavras estão
por conta do sono e tristes,
passam ao largo caminho,
falseiam a natureza

de outro tipo de semente.

Estão longe das mãos
que prenham
o fio da pipa
pra rebentar a vida no ar azul.

A poesia não nasce pros homens.

Vi muita vir de toco de árvore
que apodrece no olho da mata
e tem assobio de meninos por trás.

Os homens nunca perceberam que o vento
é apoio pra melodia que sai da boca.

O vento só
o vento que me fez sentir a alegria
o vento que conhece o fim.

Por isso tive que andar.

Acontece é aos pouquinhos.
A morte também.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Breve Historia da MPB (2a. parte)


Noel Rosa, não o melhor, mas o mais importante compositor da música brasileira, pois antes dele o único tema das letras era o romantismo, escreveu canções que são regravadas até nos dias de hoje, como Com Que Roupa?, Feitio de Oração, As Pastorinhas, Feitiço da Vila e Filosofia. “Um sujeito que dizia: ‘Que vou fingindo que sou rico pra ninguém zombar de mim’. ‘Fingindo que sou rico ...’, porque ele era riquíssimo, arquimilionário, de inspiração, arquimilionário de amigos, de tudo. Noel era o próprio samba, Noel era a própria Vila Isabel. Ele imortalizou a Vila Isabel. E se imortalizou em suas obras.” Ciro Monteiro, Programa Ensaio, 1972.

O mesmo Noel, morto em 1937, com apenas 26 anos de idade, deixou mais de duzentas composições, muitas lançadas após sua morte. O Poeta da Vila se reunia num determinado bar preferido, na Guanabara, com o Rei da Voz, Francisco Alves, um dos três maiores cantores da nossa história, pragmático garimpador de compositores, que vivia pelos morros e escolas de samba, em busca de parceiros para seus lançamentos que sempre eram sucesso de público, o que ocorreu entre 1926 e 1952, quando morreu aos 54 anos, em acidente de carro. “Sua morte arrancou lágrimas no Brasil inteiro. Os seus restos mortais foram transportados para esta capital durante a noite, e no dia seguinte filas intermináveis passaram diante do seu esquife. Multidões compungidas, chorosas, saudosas do seu ídolo desaparecido.”, assim noticiou o Jornal do Brasil, em referência ao acontecimento.

Também era presença garantida, ao redor da mesa, nas noites distantes da boemia carioca, Ismael Silva, outro importante compositor, parceiro exclusivo de Chico Alves, durante os anos de 1928 a 1935; um dos fundadores da 1ª. Escola de Samba da história a Deixa Falar que depois se chamaria Estácio de Sá; que divide com Bide (Alcebíades Barcelos) o mérito de ter inventado o tamborim. “Chico Buarque o tem na condição de primeiro mestre. Vinicius de Moraes, que lhe exaltava na obra, em primeiro lugar, ‘aquela perfeita maciez melódica’, reputo-o ‘um dos três maiores do samba carioca’. José Lins Grunewald confirmava-o, ao lado de Sinhô e Noel Rosa, no ‘trio básico de sambistas puros da fase de ouro da nossa música popular.’ ” Moacyr Andrade, Ensaio, TV Cultura. Esta união produziu clássicos como Quem Não Quer Sou Eu, Adeus, A razão dá-se a quem tem, Não Tem Tradução.

Infelizmente, como boa parte dos compositores e ritmistas ligados as raízes de nossa musica, Ismael Silva morreu pobre e solitário em 1978 com 72 anos de idade. “Pois bem, então eu vivo sozinho, infelizmente, mas eu tenho planos feitos, não hei de ficar assim toda a vida, não. Inda tenho que me casar, mesmo assim(...) Sou negro e como negro devo achar meu caminho na vida. A libertação muito recente não modificou em nada nossa situação. Somos postos de lado nas escolas, nos serviços. A identidade que nos envolve é penosa e devemos lutar para preservá-la. (...) Anote ainda duas coisinhas mais aí: o samba provocou a substituição da música européia pela de origem africana, na sociedade brasileira e mais: quando é que a gente poderia imaginar que aquelas brincadeiras fossem dar nisso? Uma coisa de esquina encher avenida? Hoje isso não é mais escola. É universidade, é academia, é faculdade, sei lá! A festa maior. Que coisa! (...) Faço sambas, vivo na pendura – vou ser internado para uma cirurgia. Tenho 72 anos. Quando sair do hospital vou fazer o circuito universitário, me apresentar emshows, cair nas atividades. O velho sambista tem de lutar pela sobrevivência, não é? ” Ismael Silva, Programa Ensaio, 1973 e em depoimentos para livro.


terça-feira, 12 de outubro de 2010

Filosofia

“Os negros da África não possuem, por natureza, nenhum sentimento que se eleve acima do ridículo.
O senhor Hume desafia qualquer um a citar um único exemplo em que um Negro tenha mostrado talentos, e afirma: dentre os milhões de pretos que foram deportados de seus países, não obstante muitos deles terem sido postos em liberdade, não se encontrou um único sequer que apresentasse algo grandioso na arte ou na ciência, ou em qualquer outra aptidão; já entre os brancos, constantemente arrojam-se aqueles que, saídos da plebe mais baixa, adquirem no mundo certo prestígio, por força de dons excelentes. Tão essencial é a diferença entre essas duas raças humanas, que parece ser tão grande em relação às capacidades mentais quanto à diferença de cores.
A religião do fetiche, tão difundida entre eles, talvez seja uma espécie de idolatria, que se aprofunda tanto no ridículo quanto parece possível à natureza humana. A pluma de um pássaro, o chifre de uma vaca, uma concha, ou qualquer outra coisa ordinária, tão logo seja consagrada por algumas palavras, tornam-se objeto de adoração e invocação nos esconjuros. Os negros são muito vaidosos, mas à sua própria maneira, e tão matraqueadores, que se deve dispersá-los a pauladas.”

(KANT, Observações sobre o sentimento do belo e do sublime: pág. 75-76)


“A principal característica dos negros é que sua consciência ainda não atingiu a intuição de qualquer objetividade fixa, como Deus, como leis, pelas quais o homem se encontraria com a própria vontade, e onde ele teria uma idéia geral de sua essência [...] O negro representa, como já foi dito o homem natural, selvagem e indomável. Devemos nos livrar de toda reverência, de toda moralidade e de tudo o que chamamos sentimento, para realmente compreendê-lo. Neles, nada evoca a idéia do caráter humano[...] A carência de valor dos homens chega a ser inacreditável. A tirania não é considerada uma injustiça, e comer carne humana é considerado algo comum e permitido [...] Entre os negros, os sentimentos morais são totalmente fracos – ou, para ser mais exato inexistentes.

(HEGEL, Filosofia da História, pág. 83-86)


“O escravo moderno não difere do senhor apenas pela liberdade. Mas ainda pela origem. Pode-se tornar livre o negro, mas não seria possível fazer com que não ficasse em posição de estrangeiro perante o europeu. E isso ainda não é tudo: naquele homem que nasceu na degradação, naquele estrangeiro introduzido entre nós pela servidão, apenas reconhecemos os traços gerais da condição humana. O seu rosto parece-nos horrível, a sua inteligência parecenos limitada, os seus gostos são vis, pouco nos falta para que o tomemos por um ser intermediário entre o animal e o homem”

(TOCQUEVILLE, A democracia na América: pág. 262).


terça-feira, 5 de outubro de 2010

E TuDo mAiS jOgO nUm VeRsO... Waly...

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

só Luis Melodia salva...

será que foi meu poema que assustou ele?
(a fenda, a escada de incêndio)

ou terá sido meu elogio ligeiro a todo aquele escancaro de arte bem na minha cara?

viver é tão ardido...
acho que vou evitar.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Chuva

Era a janela do meu quarto.

Eu via a chuva
cair sem tempo
e a ventania.

A chuva só vinha pesada
quando
ventava.

Jabuticabeiras gritavam
meu nome
numurrolongo.

E no fio das coisas
estendido
de varal sem roupas
eu atravessava o quintal.

Era o caminho que me levava
para o mundo lá fora
no movimento instável de tudo.

Meus pés sabiam
a linha suave
da cor desmanchada
do aguaceiro...

Chovia porque chovia
e eu ainda pequeno.

Na cozinha,
junto ao pão,
minha mãe rezava,
pedia tanto,
com tal fervor,
que o céu parasse.

Pedia tanto, tanto,
com tal fervor...

Não imaginava
que eu me equilibrava
na alegria.

Queimava palmas
à boca do fogão
(bentas e secas).
Palmas, acalmai...
(a fumaça das cinzas
sequer alcançava o teto)

Nem imaginava.

O Deus a ouvia
e me esquecia.

A chuva então se punha branda
e meu corpo no ar
fugia pro chão de tacos
ao lado da cama.

Meu mundo voltava
ao sussurro descansado
da garoa.

Por tempo eu esperava
o retorno da água,
do ar girante,
do trovão,
de algum relâmpago.
Dormia.

No meu sonho, jabuticabeiras
Gritavam
em meio à alegria
do vento que havia passado.

Rua

E o que vemos são pessoas
Movendo apressadas
O trajeto da manhã.

Enquanto mulheres,
Na sua jornada múltipla,
Pela rua, pela rua,
Tecem a engrenagem dos dias.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Oh, labareda te encostou

Labareda
O teu nome é mulher
Quem te quer
Quer perder o coração
Rosa ardente
Bailarina da ilusão
Mata a gente
Mata de paixão
Labareda- Vinícius de Moraes