quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Haiti



Que a fé tá na mulher
a fé tá na Cobra-coral
Ô-ô

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Testamento de Partideiro

Testamento de Partideiro

Composição: Candeia

Ao meu amor deixo meu sentimento, na paz do Senhor
E para os meus filhos deixo um bom exemplo, na paz do Senhor
Deixo como herança, força de vontade, na paz do Senhor
Quem semeia amor, deixa sempre saudade, na paz do Senhor
Aos meus amigos deixo meu pandeiro, na paz do Senhor
Honrei os meus pais e amei meus irmãos, na paz do Senhor
Mas ao fariseu não deixarei dinheiro, na paz do Senhor
Pros falsos amigos deixo o meu perdão, na paz do Senhor

O sambista não precisa ser membro da academia
Ao ser natural em sua poesia o povo lhe faz imortal
O sambista não precisa ser membro da academia
Ao ser natural em sua poesia o povo lhe faz imortal

E se houver tristeza que seja bonita, na paz do Senhor
Pois tristeza feia o poeta não gosta, na paz do Senhor
Um surdo marcando choro de cuíca, na paz do Senhor
Viola pergunta mais não tem resposta, na paz do Senhor
Quem rezar por mim que o faça sambando, na paz do Senhor
Porque um bom samba é forma de oração, na paz do Senhor
Um bom partideiro só chora versando, na paz do Senhor
Tomando com amor batida de limão, na paz do Senhor


domingo, 24 de janeiro de 2010

De como uma certa poesia contemporânea têm seu ensimesmamento tomado pela sociedade presente

Sitio

O morro está pegando fogo.
O ar incômodo, grosso,
faz do menor movimento um esforço,
como andar sob outra atmosfera,
entre panos úmidos, mudos,
num caldo sujo de claras em neve.
Os carros, no viaduto,
engatam sua centopéia:
olhos acesos, suor de diesel,
ruído motor, desespero surdo.
O sol devia estar se pondo, agora
_ mas como confirmar sua trajetória
debaixo desta cúpula de pó,
este céu invertido?
Olhar o mar não traz nenhum consolo
(se ele é um cachorro imenso, trêmulo,
vomitando uma espuma de bile,
e vem acabar de morrer na nossa porta).
Uma penugem antagonista
deitou nas folhas dos crisântemos
e vai escurecendo, dia a dia,
os olhos das margaridas,
o coração das rosas.
De madrugada,
muda na caixa refrigerada,
a carga de agulhas cai queimando
tímpanos, pálpebras:
O menino brincando na varanda.
Dizem que ele não percebeu.
De que outro modo poderia ainda
ter virado o rosto: - Pai!
acho que um bicho me mordeu! assim
que a bala varou sua cabeça?


Claudia Roquette-Pinto. IN: Margem de Manobra, 2006.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Navegação interrompida

(A mensagem acordou um poema triste)

Preso em exata posição
Anterior ao asfalto
O animal separa o que existiu
Do momento preciso a atravessar
A pista, o ato de instinto,
Sua decisão.

É navegar terra não propícia
Vestida de piche e pedregulho.
Falsear o campo seguro
Das ervas.
Mas tem que se transpor
Não sei por qual gosto
Um rio assim de perigo
O solo quente do dia
Que se foi.

O focinho apontando o outro lado.

E o vento na tarde-noite
Cortando a entrada do mato!

Paira um certo quê de embriaguez
Na estrela posta primeira
No plano azul do céu.

Antes de todas.
Vem com a tarde, vem com a tarde.

Um pássaro acusa
No pio sonoro
A travessia
Vazia de planejamento
Movida por ação pontual
Do bicho.

Seus passos não se medem.

Acontece um coletivo
Despontando sem entrave
Velocidade de seta.
A gente que ele carrega
Carrega consigo as mãos
Do cansaço cotidiano
E na terra produtiva
De esforço, prisão e fome.

Ônibus do roçado
É rural da solidão
Entregue ao silêncio
De quem não pensa a vida.
Porque são braços,
Suor e faina
Seus pensamentos.

Vem com a tarde, vem com a tarde.
Quase noite.

Então, no encontro perpendicular
Do coletivo
Com o animal,
O choque pairou no cosmos
Penderam, nas nuvens, o grito, ganido ou guincho,
Pedras deram flores
O curso d’água correu inverso.

O indivíduo agora é horizonte, pasta e sangue.

A noite pintou de escuro a engrenagem assassina.
Só não escondeu seu ronco
Que, aos poucos,
Perdeu-se no tempo de seu canto.

No interior, sentados,
Mulheres e homens
Mergulham a cabeça
No sono,
Mãos dadas ou não,
Princípio da morte de todos os dias
Na terra que um dia
Enfim
Irá colhê-los.

O bicho já não mais navega o chão.
É ilha cercada de vermelho por todos os lados.

(hoje não vi as borboletas
azuis
que estendem o fio da vida
por entre os taquarais
da manhã)

Homenagem ao Canto.






sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

desconfiança

No fundo da minha cisma tem um monte de riso.
Hum.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Clarice Lispector

Rifa-se um coração
Rifa-se um coração quase novo.
Um coração idealista.
Um coração como poucos.
Um coração à moda antiga.
Um coração moleque que insiste
em pregar peças no seu usuário.
Rifa-se um coração que na realidade está um
pouco usado, meio calejado, muito machucado
e que teima em alimentar sonhos e, cultivar ilusões.
Um pouco inconseqüente que nunca desiste
de acreditar nas pessoas.
Um leviano e precipitado coração
que acha que Tim Maia
estava certo quando escreveu...
"...não quero dinheiro, eu quero amor sincero,
é isso que eu espero...".
Um idealista...Um verdadeiro sonhador...
Rifa-se um coração que nunca aprende.
Que não endurece, e mantém sempre viva a
esperança de ser feliz, sendo simples e natural.
Um coração insensato que comanda o racional
sendo louco o suficiente para se apaixonar.
Um furioso suicida que vive procurando
relações e emoções verdadeiras.
Rifa-se um coração que insiste em cometer
sempre os mesmos erros.
Esse coração que erra, briga, se expõe.
Perde o juízo por completo em nome
de causas e paixões.
Sai do sério e, às vezes revê suas posições
arrependido de palavras e gestos.
Este coração tantas vezes incompreendido.
Tantas vezes provocado.
Tantas vezes impulsivo.
Rifa-se este desequilibrado emocional
que abre sorrisos tão largos que quase dá
pra engolir as orelhas, mas que
também arranca lágrimas
e faz murchar o rosto.
Um coração para ser alugado,
ou mesmo utilizado
por quem gosta de emoções fortes.
Um órgão abestado indicado apenas para
quem quer viver intensamente
contra indicado para os que apenas pretendem
passar pela vida matando o tempo,
defendendo-se das emoções.
Rifa-se um coração tão inocente
que se mostra sem armaduras
e deixa louco o seu usuário.
Um coração que quando parar de bater
ouvirá o seu usuário dizer
para São Pedro na hora da prestação de contas:
"O Senhor pode conferir. Eu fiz tudo certo,
só errei quando coloquei sentimento.
Só fiz bobagens e me dei mal
quando ouvi este louco coração de criança
que insiste em não endurecer e,
se recusa a envelhecer"
Rifa-se um coração, ou mesmo troca-se por
outro que tenha um pouco mais de juízo.
Um órgão mais fiel ao seu usuário.
Um amigo do peito que não maltrate
tanto o ser que o abriga.
Um coração que não seja tão inconseqüente.
Rifa-se um coração cego, surdo e mudo,
mas que incomoda um bocado.
Um verdadeiro caçador de aventuras que ainda
não foi adotado, provavelmente, por se recusar
a cultivar ares selvagens ou racionais,
por não querer perder o estilo.
Oferece-se um coração vadio,
sem raça, sem pedigree.
Um simples coração humano.
Um impulsivo membro de comportamento
até meio ultrapassado.
Um modelo cheio de defeitos que,
mesmo estando fora do mercado,
faz questão de não se modernizar,
mas vez por outra,
constrange o corpo que o domina.
Um velho coração que convence
seu usuário a publicar seus segredos
e a ter a petulância de se aventurar como poeta.


quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Clara Nunes





Para Paulinha, menina de ouro de Minas.

Alguns classicos eternizados pela nossa deusa dos Orixás.

O mar devia realmente serenar quando Clara Nunes pisava na areia
e a estrela devia indagar a si mesma: a estrela afinal será ela ou sou eu.
"Com sua licença Candeia"

Alvorecer
Composição: Ivone Lara / Delcio Carvalho

Olha como a flor se ascende
Quando o dia amanhece
Minha mágoa se esconde
A esperança aparece
O que me restou da noite
O cansaço, a incerteza
Lá se vão na beleza
Desse lindo alvorecer
Lá se vão na beleza
Desse lindo alvorecer
E esse mar em revolta que canta na areia
Qual a tristeza que trago em minh’alma campeia
Quero solução sim, pois quero cantar
Desfrutar dessa alegria
Que só me faz despertar do meu penar
E esse canto bonito que vem da alvorada
Não é meu grito aflito pela madrugada
Tudo tão suave
Liberdade em cor
O refúgio da alma vencida pelo desamor


As Forças da Natureza

Composição: João Nogueira/Paulo Cesar Pinheiro

Quando o Sol
Se derramar em toda sua essência
Desafiando o poder da ciência
Pra combater o mal
E o mar
Com suas águas bravias
Levar consigo o pó dos nossos dias
Vai ser um bom sinal
Os palácios vão desabar
Sob a força de um temporal
E os ventos vão sufocar o barulho infernal
Os homens vão se rebelar
Dessa farsa descomunal
Vai voltar tudo ao seu lugar
Afinal
Vai resplandecer
Uma chuva de prata do céu vai descer, la la la
O esplendor da mata vai renascer
E o ar de novo vai ser natural
Vai florir
Cada grande cidade o mato vai cobrir, ô, ô
Das ruínas um novo povo vai surgir
E vai cantar afinal
As pragas e as ervas daninhas
As armas e os homens de mal
Vão desaparecer nas cinzas de um carnaval (2X)


Juízo Final

Composição: Nelson Cavaquinho/Elcio Soares

O Sol há de brilhar mais uma vez
A luz há de chegar aos corações
Do mal será queimada a semente
O amor será eterno novamente
É o juízo final
A história do bem e do mal
Quero ter olhos pra ver
A maldade desaparecer
O Sol há de brilhar mais uma vez
A luz há de chegar aos corações
Do mal será queimada a semente
O amor será eterno novamente

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Música que é Silêncio

A música é o silêncio,a quietude...nada mais...
Eleva os pensamentos, Acalma a Alma .

Um pouco de Noel Rosa

Último Desejo

Composição: Noel Rosa

Nosso amor que eu não esqueço, e que teve o
seu começo
Numa festa de São João
Morre hoje sem foguete, sem retrato e sem bilhete,
sem luar, sem violão
Perto de você me calo, tudo penso e nada falo
Tenho medo de chorar
Nunca mais quero o seu beijo mas meu último desejo
você não pode negar
Se alguma pessoa amiga pedir que você
lhe diga
Se você me quer ou não, diga que você
me adora
Que você lamenta e chora a nossa separação
Às pessoas que eu detesto, diga sempre que eu não
presto
Que meu lar é o botequim, que eu arruinei sua vida
Que eu não mereço a comida que você pagou pra mim


Quem não quer sou eu

Composição: Noel Rosa e Ismael Silva

Quando eu queria o teu amor
Não davas atenção ao meu
Pra mim tu não tens mais valor
Agora quem não quer sou eu
Observo que hoje em dia
Quem não quis diz que me quer
Cabe muita hipocrisia num capricho de mulher
Vou viver desiludido
Sem amor, sem ideal
Pra não ser submetido a desejo tão banal
Ao ouvir tuas propostas
Com tão falsas frases juntas
Achei uma só resposta que responde mil perguntas
Hás de ter em tua vida
Um destino igual ao meu
Podes ir desiludida, hoje quem não quer sou eu


É Peso

Composição: Noel Rosa / Ismael Silva

É peso, estou pesado
O meu viver é uma sentença
Que eu fui condenado a cumprir
Esta pena o remorso condena
Eu serei sentenciado
Se eu soubesse que a saudade
Não se esquece nem querendo
Não deixava essa amizade
Para não ficar sofrendo
Hoje eu quero e não me queres,
E o remorso que me invade
É saber que tu preferes
Morrer longe de saudade
E quando a lua descampa
Um pandeiro a batucar
Saio da roda do samba
Pra ninguém me ver chorar
Ao azar hoje me entrego
Quem tem peso tem azar
Mas o peso que eu carrego
É a pena de te amar

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Um poeta diaspórico escreveu

Diz o I Ching:
Divino é saber
O que distingue
Você de você

Você dos outros
Do outro você
Você do mundo
Do você do ser

Você num canto
Vive o espanto
Enquanto o outro você
Sai pra viver
Por aí
Tanto pranto, tanta dor
Seu irmão
Pede o seu amor

Diz o I Ching:
Divino é saber
São dois no ringue
Você e você

Você que ataca
Pra se defender
Que beija a lona
Pra poder vencer

Você num canto
Apanha tanto
Enquanto o outro você
Bate demais
Deus do céu
Quanto sangue pelo chão
Seu irmão
Pede o seu perdão

http://www.gilbertogil.com.br/sec_disco_interno.php?id=48


cavuquem lá a faixa 10.

Fresta de segunda-feira

Ao que me escapa
A vida de todos os dias
Foge também o menino
Andando vazio pelas ruas
No frio antigo da minha cidade.

Queria ir à África,
Queria ser a África.

Na manhãzinha úmida da névoa construída
- a noite engenhava sonhos -
Eu ia em busca da missa.
À espera da escola, à espera do sinal estridente.
Meus sapatos pretos acordavam
A calçada ainda dos bêbados do domingo.
Antes da capela, o padre holandês
Triste, triste, triste,
Passava com seu cachimbo à boca,
Equilibrando o grande corpo
Na miúda bicicleta.

E eu me equilibrava no meio-fio!

Queria ir à África,
Queria ser a África.

O tempo depois contou tristezas maiores,
Mais fundas.
Mas colava o material das aulas ao corpo
Acompanhando o sol chegar.

No caminho,
Pardais me davam abrigo,
Pardais carregavam o fim,
Esse fim que nunca acaba,
E na missa eu via o cachimbo
Tragando tudo
Tudo tudo.

Trem no altar.

Então a fumaça
Salvava o menino
Alçava meu corpo
Sobrando nas nuvens
Junto às andorinhas.

Escapava por uma fresta do vitral
E me encontrava com São Francisco,
Laico, sem fé nem rei,
Como São Francisco deveria ser.

E só, nesse momento, eu sorria.
As freirinhas escondiam o rosto da alegria
Mas o padre, por um instante,
Ao me ver ausente,
Acreditava enfim em Deus.

Aquele menino, quando hoje acendo um cigarro,
E sinto a tarde anoitecer comigo,
Senta ao meu lado
E me chama para ver o mar.

E eu não dou a mínima.

Queria ir à África,
Queria ser a África.