sexta-feira, 31 de julho de 2009

Um sopro histórico de MPB. (4ª. Parte)

Roberto Martins é um, entre os vários artistas fundamentais, que freqüentaram a Praça Onze naqueles tempos idos, no início do século XX, onde se localizava a casa de Tia Ciata, berço do samba. O samba durante muito tempo teve como sua figura inaugural o violonista e compositor Donga, nascido no dia 5 de abril de 1889, filho de pai pedreiro e tocador de bombardino, com a famosa Tia Amélia, do grupo das baianas da Cidade Nova, cantadeira de modinhas, festeira e mãe-de-santo, desde os 4 anos já freqüentava a casa de Tia Sadata, na Pedra do Sal, beco do bairro da Saúde. Por volta de 1893, os baianos que freqüentavam a casa de Tia Sadata fundaram o que, segundo Donga, foi o primeiro rancho do Rio de Janeiro, o Dois de Ouro, onde desfilou como ‘porta-machado’, figurante que abria o desfile brandindo um pequeno machado, em uma dança parecida com a capoeira. Passou a infância entre ex-escravos e negros baianos, com quem aprendeu o jongo, afoxé, dança-de-velhos entre outras danças provenientes da macumba e candomblé e ritmos populares que serviriam de base para sua carreira musical. Começou a tocar cavaquinho, de ouvido, e passou para o violão em 1917, tomando aulas com o famoso Quincas Laranjeiras, inventor de um método revolucionário.

Juntamente com João da Baiana, Caninha, Sinhô, Pixinguinha, Didi, Gracinda, Buci Moreira, entres outros, Donga freqüentava a casa de Tia Ciata, onde, em 1916, nasce Pelo Telefone, que ele registra como seu na Biblioteca Nacional, ato que foi contestado pelo grupo, pois consideravam a criação de caráter coletivo, por ser oriunda de partido-alto, em que todos improvisavam versos. Mas a grande importância de sua atitude, motivado pelo advento da indústria fonográfica e visando a ampliação das possibilidades de uma música antes restrita ao ambiente do seu povo negro, foi ter “introduzido o samba na sociedade”, dando ao samba o status indiscutível de gênero musical brasileiro pois foi historicamente a primeira obra do gênero samba a receber estatuto legal, o que o governo de Getúlio Vargas, na década de 1930, viria convalidar.

“Vivia-se, entretanto, no Brasil, pelos primeiros anos do século 20, um clima absolutamente desfavorável a qualquer expressão cultural emanada do povo negro. Menos de duas décadas tinham-se passado da extinção legal do trabalho escravo e a sociedade brasileira procurava de todos os modos, apagar a ‘mancha africana’. Assim, em termos musicais, ao tempo das chapas de gramofone, que eram os primitivos suportes fonográficos, gravavam-se polcas, valsas, modinhas, maxixes, lundus etc. Mas o samba propriamente dito (e o termo ‘samba’ designava qualquer batuque de negros) tinha interesse apenas etnográfico, sem qualquer possibilidade mercadológica. (...) À parte, então, esse particular interesse etnográfico, do ponto de vista mais geral, o samba era prática marginal, desclassificada. Era a música dos libertados, porém deserdados pela Abolição, dos desordeiros, dos capadócios, da malta enfim. E por isso era reprimido pela ordem constituída, num estado de coisas que, menos ou mais brandamente, veio até a década de 1930. ‘Os sambistas, cercados em suas próprias residências pela polícia, eram levados para o distrito e tinham seus violões confiscados’ contava Donga ao escritor Muniz Sodré, conforme transcrito no livro ‘Samba, o dono do corpo’ (Rio, Codecri, 1979). ” Donga, um Retrato Ampliado de Lygia Santos.

O samba, durante muito tempo foi motivo de perseguição, como conta também Roberto Martins no Programa Ensaio “Não, eu fui tirar o Ataulfo. Ele estava preso, isso sim. Naquele tempo, tinha uns policias que tinham mania de prender porque ganhava prêmio. Então, tinha que mostrar a carteira de trabalho. Ele vinha da gravação, tinha gravado uma música na Victor, até um samba muito bonito, vinha com uma pastinha na mão, coitado, ia para casa, morava no Catumbi. Quando ele entrou no baixo meretrício, veio um investigador (não vou citar o nome para não fazer propaganda para ele) e prendeu o Ataulfo e levou para o distrito, que era o 8º. Distrito, na Rua Senhor do Matosinho. Aí me falaram, eu fui lá, falei com o comissário: ‘Doutor, prenderam um rapaz que é meu amigo. Ele é musico, toca violão’. Ele ainda disse: ‘Mas violão é instrumento de vagabundo’. Eu digo: ‘O senhor está dizendo isso como todo mundo diz, mas não é não’. Ainda citei um cara famoso, Sebastião Santos, que tocava todas as óperas no violão: ‘Então o senhor não conhece o Sebastião Santos, que toca opera que o senhor quiser ouvir, trago ele aqui no xadrez pro senhor ouvir’. – ‘Não, toma a chave, vai lá e solta ele.’ Aí eu dei a chave a um guarda para soltar o Ataulfo e ele foi embora comigo.”

Em 1919, foi convidado por Pixinguinha a integrar o conjunto Oito batutas, de importância fundamental na história da música brasileira, estreando na sala de espera do cinema Palais. O grupo fez muito sucesso entre a elite carioca, por executar, no centro da cidade, música popular, como maxixes, canções sertanejas, batuques, cateretês e choros, com instrumentos até então só conhecidos nos morros e nos subúrbios. Em janeiro de 1922 os Batutas apresentaram-se durante seis meses em Paris com o nome de ‘Les Batutas’, sendo o primeiro conjunto brasileiro de música popular a excursionar pelo exterior. Neste mesmo ano, o grupo ainda atua na Argentina, onde grava uma série de discos na Victor, antes de dissolver-se. Em 1928, organizou com Pixinguinha a Orquestra Típica Pixinguinha-Donga, eminentemente dançante, responsável por gravações no selo Parlophon, da Odeon. Durante os anos de 1930, atua nos grupos Guarda Velha e Diabos do Céu, formados por Pixinguinha para diversas gravações em algumas gravadoras, onde ele tocou cavaquinho, banjo e violão.

Em 1940, Villa Lobos, levou vários artistas, entre eles Donga, Cartola, Luiz Americano ao maestro Leopold Strokowski (1881-1976) para a gravação de discos documentais de música brasileira em 78 rpm. Lançados nos Estados Unidos em 2 álbuns intitulados Native Brazilian Music, nove composições de Donga foram neles incluídas: Cantiga de Festa, Macumba de Oxossi e Macumba de Iansã, todos com José Espingela, cantadas pelo grupo do Pai Alufá; o samba Seu Mané Luis, a toada Passarinho Bateu Asas, com Leonardo Mora, e Pelo Telefone, com Mauro Almeida, cantadas por Josué Gonçalves; a toada Ranchinho Desfeito, com De Castro e Sousa, cantada por Jararaca e Ratinho; e Que Queré, com João da Baiana e Pixinguinha, cantada por João da Bahiana.

“Olha esse ponteado, Donga!" - A exclamação com que Almirante incentivava o violão solista do Grupo da Guarda Velha está perpetuada em um dos discos mais famosos da história da música popular brasileira, gravado por importantes músicos e compositores da fase de sedimentação do samba no Rio de Janeiro. O grupo foi organizado por iniciativa de Almirante, em 1954, Donga tocou e gravou com o conjunto até 1958, seus integrantes eram Pixinguinha (sax tenor), Donga (violão, prato e faca), João da Baiana (pandeiro), Bide (ritmo), Alfredinho (flautim), J. Cascata (ritmo e canto), Rubem, Mirinho, Carlos Lentine (violões) e Valdemar (cavaquinho), além do Almirante (canto).

O único LP individual de Ernesto Maria Joaquim dos Santos, o grande arquiteto da música popular brasileira, foi lançado em 1974 pela gravadora Marcus Pereira. Neste disco, foi registrado trechos do depoimento prestado por Donga ao Museu da Imagem e do Som, do Rio de Janeiro.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

terça-feira, 28 de julho de 2009

Aboio das águas

O bom do caminho é haver volta. Para ida sem vinda basta o tempo.
Mia Couto

Quando nasce a minha dor
pássaros levantam avôo
e um aboio canta longe.

O princípio mais sereno dos seus olhos
É chover a multidão dos meus sonhos.

Quando nasce a minha dor
o gado move lento
seu peso num tempo próprio.
De atravessar,
O pasto não viu o mar.

O meu roçado, onde firo a terra,
são águas do oceano,
que tardam o tempo tão triste,
e colhem o peixe maduro.

Ooooooo eh eh eh ei

Vaqueiro de águas mais fundas
Fruto de rochas da encosta
Seu filho, um nome de pedra
No vento, uma filha falha.

Ooooooo eh eh eh ei

A língua da onda cheia
Cala-se pra escutar
O aboio.

O silêncio põe o vento
Levando na roda o canto.

Na pedra mais alta
Pássaros cercam as palavras
Que você largou ao sol
Para um dia tornarem-se laço,
Rede, tecido, texto.

Quando volto a minha dor
A jangada já amarrou o dia
Então sei que toda estrada
É um caminho de aproximar.

O campo do oceano
Amansa o gado das marés.
Enquanto o mundo entranha,
Levo a boiada da vida.

Ooooooo eh eh eh ei!

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Reforma Agrária ou Social ?

“Publico aqui este texto lançado em Agosto de 1997 no zine Não Racismo de minha autoria.”


A reforma agrária é um processo que já deveria ter sido realizado em nosso país há várias décadas, mas, a cada ano que se passa, vão se tornando piores as conseqüências de sua não realização. No Brasil, existe uma quantidade inestimável de terras abandonadas; os proprietários destas terras nunca as utilizaram, nem pensam em utilizá-las, porém não se desfazem das mesmas, nem as cedem para alguma utilização racional e produtiva, preferem possuí-las como Status Social, porque, afinal de contas, não é “qualquer um” que pode possuir milhares de hectares de terras. [“Terra sem gente para gente sem terra é o significado da palavra sem-terra em português. Desde os tempos coloniais, o interior do Brasil tem sido um mosaico de privilégios onde um punhado de barões governa sobre propriedades do tamanho do país.” (The Economist - 13/04/96 - Revista Britânica, três dias antes do massacre de Eldorado dos Carajás/PA)].

Para se ter uma idéia melhor da falta de distribuição de terras em nosso país, é só observar os dados fornecidos pelo INCRA, pelos quais existem 3.114.898 imóveis que declaram ter 331 milhões de hectares no total. Deste total 75% dos imóveis, com no máximo 50 hectares, concentram apenas 11% do total de terras. Os imóveis entre 50 até 1000 hectares somam 22% do total e concentram 39% do total de terras. Completando os totais, descobre-se que apenas 3% dos imóveis, todos acima de 1000 hectares, concentram 50% das terras de nosso país. E para finalizar o absurdo maior, apenas 75 propriedades, acima de 100 mil hectares, aproximadamente 0,002% do total de imóveis, são donos de 7,3% de terras, 24 milhões de hectares. [De acordo com a Receita Federal, 99.2% dos grandes proprietários rurais sonegam o ITR (Imposto Territorial Rural). Em 1.994, o ITR contribuiu apenas com 0,05% (30 milhões de reais) sobre o total de 65 bilhões que o Fisco arrecadou. E em 95 o ITR contribuiu com 113 milhões, 0,14% dos 80 bilhões arrecadados pelo governo.” (O Globo - 15/04/96)]. Então, além de concentrarem terras improdutivas em seu domínio, os grandes proprietários ainda prejudicam o país não pagando seus impostos, o que os pequenos são obrigados a fazer, porque como não tem poder ($) podem ir para a cadeia.

Voltando para a reforma, após a tão falsa “libertação dos escravos” (“O branco escravizou o corpo do negro, mas a sua alma nunca foi escrava dos brancos.” - Baseado nas Ruas, grupo de Rap de Brasília), a obrigação do governo vigente era ter realizado, no mínimo, uma distribuição de terras para os escravos libertos, não jogá-los na sociedade em condições, para muitos, até piores do que nas quais se encontravam. Com o passar do tempo, essa situação evoluiu para o que é hoje, a maioria da população negra se encontra em favelas ou nos bairros mais pobres das cidades em geral. A realização da reforma agrária compensaria, mas não totalmente, porque isto é algo impossível, pelas milhares de vidas que se perderam por causa desta injustiça histórica.

A reforma colocaria todos os sem-terra em seu devido lugar: a terra, que é deles por direito, porque eles desejam e merecem ter condições para produzir alimentos. E não ficar ao deus dará, em meio uma luta desigual, tendo que enfrentar fazendeiros hipócritas e exploradores; policiais despreparados, mal orientados e muitas vezes mal intencionados (movidos pelo interesse no dinheiro, oferecidos pelos fazendeiros); políticos sujos com sua costumeira má fé, sempre querendo tirar proveito da situação. E também acabariam esses massacres nojentos, idiotas e abomináveis que nos enfiam goela abaixo, sem que as “autoridades competentes” tomem as devidas providências.

[“Vi uma criança de 10 anos receber tiros da policia. Depois de baleada, foi chutada por um policial até morrer.” (Eurival Martins Carvalho - sobrevivente do massacre de Eldorado de Carajás - Correio Brasiliense 19/04/96) Onde está essa criança?]

[“Missão cumprida, pessoal. E o melhor é que aqui ninguém viu nada.” (Declaração do coronel Pantoja diante da tropa reunida no quartel após ter assassinado 19 trabalhadores - O Globo 25/04/96)]

Após a solução dos sem-terra, poderiam ser deslocadas para o campo, pessoas que moram em favelas, e que não tem nenhuma perspectiva de melhoria de vida, educação, empregos e até mesmo de vida em si. Estes deslocamentos, certamente fariam com que muitos problemas das grandes cidades diminuíssem e ficassem mais simples de serem resolvidos. Porque grande parte das pessoas que se envolvem com crimes, drogas, tráfico, o fazem por não terem outra alternativa, são jogadas para isto como se fosse uma lógica baseada no desejo individual e não no contexto social. Estas pessoas poderiam ter o apoio dos antigos sem-terra, para poderem ter sucesso nesta nova empreitada em suas vidas.

Todas as pessoas (sem-terra e outras) que fossem para o campo, deveriam ter o apoio irrestrito do Estado, para poderem construir uma moradia em sua propriedade e começar a produzir. Assim eles garantem no inicio, pelo menos, o próprio sustento e com o passar do tempo, pagarão todo o investimento feito. Este pagamento poderia ser feito através dos próprios produtos produzidos por eles. Com isso o governo poderia ter um custo menor para financiar vários programas sociais e para abastecer as escolas. E quem sabe não houvesse tanta fome e falta de condições humanas em nosso imenso (em diversos aspectos) país.

Por todos estes fatores, o Movimento Sem Terra é hoje o mais importante movimento social, porque eles simplesmente reivindicam justiça social e se o governo não apressa a reforma agrária é por falta de vontade política ou por apoio incondicional a essa estrutura baseada no mercado e no capital. Ou por acaso um estado democrático aberto e popular preferiria que os sem-terra viessem para as grandes cidades, morar nas favelas, pedir esmolas, disputar com cães e gatos os restos das feiras? Ainda mais, levando em consideração, que temos exemplos de Assentamentos bem feitos, que tiveram ótimos resultados.

[Hoje para a professora Leonildes S. de Medeiros, do curso de Pós-Graduação em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade da UFRRJ, “O Movimento Sem Terra é o único capaz de contestar, de forma organizada, a atual política governamental. Além disso, desnuda, com chocante crueza, a face dramática, incômoda, miserável, de uma sociedade dilacerada pelas contradições sociais” (Revista Crea/RJ - No. 03)]

[“Mesmo em época de baixa produção, as nossas famílias não se preocupam com desemprego e com a fome. Temos estabilidade e fartura.” (Ulisses Gomes - Assentamento Sumaré/SP - Jornal Debate -Jun/96)]

MST - Movimento Sem Terra - Secretaria Nacional

Alameda Barão de Limeira, 1232 – 01202-002 – São Paulo /SP

Todos “[ ]” fonte: Agenda MST


A seguir, não se pode deixar de lembrar a todos a letra de João Cabral de Mello Neto e música de Chico Buarque, escrita em 1.965, que já mostrava o pensamento ou desejo dos latifundiários há mais de 30 anos, e que continua sendo bem atual.


FUNERAL DE UM LAVRADOR

Esta cova em que estás

com palmos medida

é a conta menor

que tiraste em vida

É de bom tamanho

nem largo nem fundo

é a parte que te cabe

deste latifúndio

Não é cova grande

é cova medida

é a terra que querias

ver dividida

É uma cova grande

pra teu pouco defunto

mas estarás mais ancho

que estavas no mundo

É uma cova grande

pra teu defunto parco

porém mais que no mundo

te sentirás largo

É um cova grande

pra tua carne pouca

mas à terra dada

não se abre a boca

É a conta menor

que tiraste em vida

é a parte que te cabe

deste latifúndio

É a terra que querias

ver dividida

Mas estarás mais ancho

que estavas no mundo

mas à terra dada

não se abre a boca

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Vai Vendo

Dez e meia e de ressaca, sigo, pegar o trem.

Mochila, chinelo amarelo, livro de Edward Said, a roupa do corpo e mais um casaco.

Da cidade Universitária desce na Luz, vai até Guaianazes, segue até a estação Estudantes e pega um busão na rodoviária de Mogi destino Jacareí. Entendeu Fê? Desce na Dutra, terceira passarela depois do Galeto de Ouro. Espero você lá.
Tá feito Chico, valeu companheiro.

Quando eu cheguei na Escola Nacional Florestan Fernandes, a Escola do MST, em Guararema, fazia um frio boreal. Meu chinelo amarelo me traiu.
Dedos enrugados, dentes batendo.

- êta guria, tá frio né?
- sorriso de quem sofre
- venha cá, seja bem vinda à nossa Escola, toma um chimarrão que te esquenta.
- alívio.

Fui chegando, descendo a ladeira que leva ao vale onde estão espalhados diversos prédios com salas de aula, refeitório, alojamentos, espaços de convivência, salas de leitura, agro-floresta, ciranda (onde ficam as crianças), quiosques, livraria, auditório, vixi, e mais uma par de coisa.

Lugar bonito. Pé de banana, de laranja, fotos de Che.

Quando cheguei estava começando a reunião de dirigentes das coordenadorias regionais do MST. Numa tacada só fui apresentanda a um alagoano, uma piauense, ao Duda, que é uma das lideranças do Movimento no Pontal e quase morreu três vezes, a um gaúcho e a uma pernambucana, todos na mesma roda de conversa, falando sobre a festa que haveria mais tarde para lembrar a revolução da Nicarágua.
- você poderia ler um dos poemas, assim você se apresenta pra todo mundo
Eu li, mas não foi poema não, foi um trecho de Fanon.

Todos os militantes vão à Escola duas ou três vezes por ano, participam de reuniões, muitas reuniões, onde expõe e propõe.
Além disso, há cursos de formação política, que duram quatro meses e são dirigidos às pessoas que estão envolvidas com a Via Campesina e parceiros do MST. Vêm gente de todos os países da América Latina, da África e até da Coréia.

Oxalá, meu pai, e eles conversam.

Há pessoas que moram lá dentro, como Paulo, sua esposa Néia e seu filhinho lindo de seis anos chamado Ernesto Che, que me receberam com quatro tipos de cachaça de alambique e licor de açaí... enquanto Che jogava bola lá fora. Vinte anos de Movimento, eles se conheceram num assentamento.

As tarefas são todas divididas, os grupos de estudantes de geografia que fazem curso lá são responsáveis pela lavanderia, às vezes pela cozinha, ou pela guarda. A limpeza é feita por todo mundo, e todos capinam o mato e colhem as frutas que são servidas no restaurante.

Lugar bonito. Trabalho coletivo, música haitiana saindo de uma janela e se espalhando pelos aléns, professor doutor tomando café sentado com um aluno e um trabalhador da Escola, o Jão, que cuida das tretas elétricas.

Sem discursos patéticos. Sem pseudo-revolucionários profissionais. Gente tranquila, que ri, que canta, que não se deixa enganar fácil.

Ontem à noite teve samba. Não era pra ter não. Mas um moço do Espírito Santo disse que eu estava parecendo a Clara Nunes, acho que por causa do vestido branco que a Jaque me emprestou e o cabelo ouriçado. E Carolina, que é um preto de quase dois metros e uns cento e dez quilos, fez questão de gritar que se não fossem agora pegar tambor ele ia se embrabar.

Pronto. Gente do Brasil inteiro, mais pessoas de Cuba, da Bolívia, do Equador, do Paraguai, da Argentina, do Chile, da Coréia, de Moçambique, na mesma roda, batendo palma, batendo pé, batendo atabaque, estouro de boiada no peito.

Antes desse churrasco fomos beber cerveja num bar fora da escola. Ave Maria.
Imaginem isso: mesa de pau, cerveja 2,50, carro de boi passando vez em quando, criança soltando pipa, do lado montanhas, montanhas, Luiz Gonzaga tocando e os veinho tudo bebo me chamando pra dançar.

Eu não sei não, mas parece que esse Brasil tem jeito.

Conversei com muitas pessoas, muitos jovens, muitas mulheres, muitos homens de história.

- Não, pra mim, é inaceitável. Eu conheço esse cara, a gente comia pizza de dois dias passados com café, ia cedo pras fábricas pra conversar com os trabalhadores antes deles entrarem no serviço, eu conheço ele, e até hoje me dói, porque ele traiu a gente, ele traiu o povo, por isso que o MST não vai nunca se tornar partidário, porque nossa estrada era até pouco tempo junto a do PT, mas o PT cruzou a linha, passou pro outro lado, e a gente vai ficar desse. Do lado do povo.

Foi mais ou menos com essas palavras que o Zé me fez chorar. Chorar sei lá porque. De raiva do Lula, de amor por saber que tem gente que se manterá íntegro.

Mas meu choro valeu um abraço apertado de um homem de uns cinquenta anos que fundou o PT junto com Lula. E mais um gole de cachaça.

Voltei de carona com Carlos (quinze anos de MST) que ia pro Brasil de Fato, e o japa muleque firmeza.

O nego ficou lá estudando.

A vida, pra quem luta, é mais bonita.

sábado, 18 de julho de 2009

Pergunta

Como buscar a morte
se a morte se faz presente
nos dias
eternos
de 1979?

quinta-feira, 9 de julho de 2009

O tempo manso

Manso, o tempo que ora vai
percebe menos as coisas.
De passar intenso
tateia esse corpo
pede o chão.

Vejamos assim:
a tarde parou
o coração está agudo
é crime dizer não
fumar cigarros
amar teus olhos
promover o levante.

Sinal de fracasso,
o tempo agora procura
a umidade da casa
o escuro dos cantos.

O tempo sobra eterno
no tempo dos teus olhos!

E se instalará a contragosto
no cotidiano tão colonial
dos que condenam

O samba do largo

O riso sem querer

A presença de Candeia.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Alguém assim, alguém sem fim

Gaita em campo aberto, a saudade ao vento
Corre. E faz de outras paisagens a cama
Onde a palavra sem presença trama
A tua presença no meu traço lento.

Se o verso que ora escrevo é um porto em pranto
De cantos, pelo mar jangada afora,
Os negros já cantaram a dor que mora
Sem fim e na voz que adormece tanto.

Pau, laço preso em tuas mãos, trilha alguma
Que brinca pelos barcos, liberdade,
Se o verso é um porto frágil e a lua ruma,

Teu corpo foge solto com a saudade,
Há um corte que ainda sangra na canção
No samba, entre o mar, os ventos, o chão.

O título foi sinceramente tirado de uma canção de Paulo Tatit e Zé Miguel Wisnik.

terça-feira, 30 de junho de 2009

Um sopro histórico de MPB. (3ª. Parte)

O Programa chamado Ensaio, antes MPB Especial, produzido desde 1969, exibido pela TV Tupi e até hoje pela TV Cultura, trás, de uma maneira mais superficial, o artista convidado executando suas composições ou musicas mais conhecidas entre depoimentos sobre sua vida e carreira. Olhando mais de perto conseguimos captar em suas palavras, na maneira que se expressa, nas historias de sua vida e dos relacionamentos com outras figuras históricas, a essência deste artista como pessoa [sua alma], sua verdadeira qualidade artística, no caso dos ‘apenas’ compositores conseguimos perceber toda sua noção musical e total domínio do fraseado por mais que não sejam grandes interpretes. Para que possamos perceber tudo isso, precisamos estar livres de todo e qualquer pré-conceito musical, porque em alguns casos ouviremos grandes interpretações, sem aquela voz macia e tal, mas carregadas de emoção e apuro técnico, valiosas perolas musicais.

Fernando Faro, diretor do programa, teve em alguns casos uma sorte grande, como o que aconteceu com Roberto Martins, pouco badalado compositor, mas um dos grandes da era de ouro da MPB, nascido em 29/1/1909 e tendo falecido em 14/3/1992, gravou o programa em 1991, por questão de meses foi possível ter seu depoimento e interpretações emocionadas como a de Favela, feita em parceria com Waldemar Silva, seu primeiro grande sucesso e talvez o maior, gravada por Francisco Alves em 1936, recebeu mais de 100 gravações; teve também enormes sucessos na voz de Orlando Silva, com Meu Consolo é Você e Dá-me Tuas Mãos; Ciro Monteiro gravou Beija-me; Nelson Gonçalves projetou-se com uma composição sua, o fox Renuncia; fez em parceria com Wilson Batista, o samba precursor da questão social Pedreiro Waldemar, que estourou no carnaval de 1949, interpretado por Blecaute.

“Que eu gravei até agora? Gravei 384 musicas, mas tenho 56 anos de carreira. (...) Conheci. Desde menino, conheci a praça Onze. Você quer que eu fale, mas não vou falar das escolas de samba, porque antes tenho que falar como era a praça Onze. A praça Onze, vocês deviam conhecer. Tinha a rua Senador Eusébio, a Visconde de Itaúna e tinha a rua Santana e Marques de Pombal, ela ficava no meio, onde tinha a gafieira As Colombinas. A Kananga do Japão nunca foi na praça Onze. (...) Vou te falar dos batuqueiros. Depois que acabava o carnaval e as batalhas de confete que tinha na praça Onze e naquelas ruas do Centro, à meia-noite, o povo se recolhia. Então vinham os malandros, o Quico da Favela, o Waldemar da Babilônia, o Madureira do Engenho Velho, O Brancura do Estácio, o Mulatinho do Catete (esse cara foi morto com 18 tiros na praça Onze, quando ele quis pular a grade da escola que tinha ali e não conseguiu, por causa de batucada). O Mulatinho do Catete era o malandro do Catete. Naquela época, cada lugar tinha um malandro e havia a batucada pesada, aquela Derruba, Bota no Chão. Quando chegava a policia, era um bate-fundo medonho, todo mundo corria. Essa é a praça Onze primitiva.”

E ele continua falando sobre a batucada, muito parecida com a roda de samba conhecida em São Paulo como tiririca ou jogo da pernada. “Era uma roda de samba e ainda tinha o ‘compadre’. Na batucada tinha sempre um ‘compadre’. É aquele batuqueiro que, quando você pegar um cara que é faixa dele, entra no meio e não deixa pegar. Essa cara passa, canta, empurra a perna devagar e dá a volta, vai cantando. Quem cantava era ele e os outros respondiam. Era uma espécie de partido alto. (...) O partido alto não é como eles dizem agora que é pagode. Pagode é o lugar onde você vai cantar e não a musica. A música era partido alto. Naquela época, eu fiz uma musica:

O teu riso tem, tem, tem, tem

Tem qualquer coisa que me domina, meu bem

O teu riso tem, tem, tem, tem

Tem qualquer coisa que me domina, meu bem

Tua boca é uma alvorada

Nunca vi sorriso assim

Sem teu riso não sou nada

Dá um sorriso pra mim.

De lá respondiam:

Mina minha menina

Mina dos olhos veludos

Se o teu pai ... homem sério

Teu amor teria tudo

A noite toda era assim, mudava um refrão e botava outro.”

Ele também revela uma face de Francisco Alves pouco conhecida ou imaginada por todos, afinal ele era o Rei da Voz. “Conheci. Era um cara bom. Chico Alves era bruto, mas era bom de coração. Era Bruto. Ele fazia coisas de criança às vezes. Ele estava conversando com você e cuspia. Você levava ele numa casa para apresentar uma mulher e, de repente, ele cismava e saía porta afora. Ele era meio queimado. (...) A história da Cai Cai? O editor arranjou a gravação e mandou que eu mostrasse ao Francisco Alves. Mas eu tinha cantado a música para o Joel. Eu fazia o seguinte: o primeiro que gostar grava. É como amor, não espera muito, senão não ganha. Aí cantei para o Joel e ele gostou da musica: ‘Você me dá, Roberto?’ – ‘Não sei. Me deram uma incumbência para cantar para o Chico.’ – ‘O Chico não canta esse estilo. Esse estilo batucada não é do Chico.’ Aí fui cantar para o Chico e cantei mal mesmo: ‘É essa música? Essa não’. O Joel gravou e a musica começou a estourar logo no inicio. Ai o Germano [Augusto] veio me dizer: ‘Roberto, o Chico ta doido te procurando, quer falar contigo. Ele está aborrecido. O que tu fez a ele?’ ‘Num sei.’ Eu vi logo que era o negocio da musica. Mais tarde, ele me encontrou no Nice: ‘Você pensa que é malandro? Eu sou malandro da Lapa. Eu que sou o Chico da Lapa.’ – ‘O que há Chico, está zangado por quê? Que isso.’ – ‘Não fica com deboche.’ – ‘Não to com deboche. Diga pra mim o que é?’ - ‘Você cantou pra mim, me engrupiu e depois foi dar para o Joel. Não gravo mais nada seu’. Ficou uns tempos zangado comigo, mas depois gravou uma porção de coisas.”

Luis Nassif considera Roberto Martins o Rei desconhecido do Samba Sincopado. “Quando leio essa produção acadêmica sobre a bossa nova, sustentando que a música brasileira anterior era composta só de dramalhões, coloco no aparelho as músicas de Roberto Martins e me dá uma pena desses pesquisadores…”

“Favela, oi favela

Favela que trago no meu coração

Ao relembrar com saudade

A minha felicidade

Favela do sonho de amor

E do samba-canção

Minha favela querida

Onde eu senti minha vida

Presa a um romance de amor

Numa doce ilusão

Em uma saudade bem rara

Na distancia que nos separa

Eu guardo de ti esta recordação

Minha favela!

Hoje tão longe de ti

Se vejo a lua surgir

Eu relembro a batucada

Começo a chorar

Favela das noites de samba

Berço doirado dos bambas

Favela, és tudo que posso falar.

Barulho no morro

Foi o que houve num arrasta-pé

Quando Pedro deu um beijo

Na cabrocha do José

Enquanto eles brigavam

Todo mundo assistia

Foi preciso que a policia

Desse fim à valentia

José morreu, e Pedro foi condenado

E a cabrocha foi com outro que vivia apaixonado

E nunca mais ouviu-se um grito lá no morro

Nunca mais ninguém ouviu um apito de socorro

Barulho, barulho, barulho no morro.”

domingo, 28 de junho de 2009

Canção



As minhas mãos não são duas flores
Para seus olhos lassos.
Mas elas trazem o perfume
Do amor
Quando domam a sua pele
Nos sítios tristes da vida.

As minhas mãos, companheira,
Traçam o gesto rebelde
Num país estranho
De dor e de asas.
Mas elas pousam
No remanso simples
Do seu corpo.
E aprendem que a felicidade
É um ato de amar.

As minhas mãos estão estendidas
Mostrando as palmas
Ao seu olhar de outras dores.

Se oferecem, namorada.

E pedem, minha senhora,
Permissão para se tornarem
Suas.

domingo, 21 de junho de 2009

Outras Conversas


Todos sabem como se trata um futurista.

Mira aboios



Tangendo boi magro
aboio reclama a cor verde
na pedra.

A tristeza do cantador
é saber das demoras:
no sertão se silencia.

Quem chove no sertão são
os aboios.

boi brasileiro vive astuto na sede
calado:
tambores para transportá-lo

Vira bumbá
boi de mamão
boitatá
peixe prata
poema de drummond.

A igreja matriz do cangaço é de substância aboio.

Chove no preto
Chove no índio
Colher algodão ingrato

Estamira canta
guerreando palavras
um aboio declarado

Estamira sou eu.
e também sou os passos do gado.

sábado, 13 de junho de 2009

Iniciação

Para pôr um pouco de sal no brasil
Basta o vento dos mares
Que trouxeram os negros.

Me guarde
Aquele que me escolheu.

Os riscos das folhas
Caídas na mata.
Sempre esses pássaros
Em suspensão na vida.

Para pôr um pouco de sal no brasil
Basta da mão que lança o tiro, a bomba,
Antecipando a morte.
Deixem que o tempo
Permita dizer de cada um

Quando é o tempo.

Porque sou feito de milho.
O que salga e colhe
Na plantação perdida de fim.

Me guarde três vezes
Aquele que me escolheu.

domingo, 7 de junho de 2009

Eu procurava uma amplidão




Pois eu exultava.
Eu conhecia a violência do escuro alegre - eu estava feliz como o demônio,
o inferno é o meu maximo.

(Clarice Lispector,
A Paixão Segundo G.H.)

domingo, 31 de maio de 2009

Um sopro histórico de MPB. (2ª. Parte)

Por um momento retorno a 1870, ano em que chega ao Rio de Janeiro, Hilaria Batista de Almeida, mais conhecida como tia Ciata, nascida no dia 23/4/1854, em Santo Amaro da Purificação, Bahia; cozinheira, sempre garantiu parte do sustento de sua família graças a seus famosos quitutes; fundou o Rancho Rosa Branca, um dos primeiros a existir no carnaval [rancho é o tipo de organização carnavalesca anterior a escola de samba]; filha-de-santo de João Alabá, de Omulu, como suas amigas tia Sadata (fundadora do Rancho da Sereia), tia Amélia do Aragão (Amélia Silvana de Araujo, mãe de Donga), tia Preciliana do Santo Amaro (Preciliana Maria Constança, mãe de João da Bahiana), tia Mônica, tia Bebiana e tia Gracinda (esposa do sacerdote islâmico Assumano Mina do Brasil). Em 1904 fixou residência na Rua Visconde de Itaúna, 117, em frente à Praça Onze, onde morou até morrer, em 1924. O casarão era uma legítima casa de cômodos, com seus 6 quartos, 2 salas, um longo corredor e quintal com árvores. Foi ali que escreveu seu nome como a figura de maior importância na criação do samba.

“A partir dos anos de 1870, na região que se estendia da antiga Praça Onze de Junho até as proximidades da atual Praça Mauá, compreendendo as antigas freguesias e localidades de Cidade Nova, Santana, Santo Cristo, Saúde e Gamboa constituía-se o núcleo principal da comunidade baiana na cidade do Rio de Janeiro, antiga capital do Império e mais tarde da República. Pólo concentrador de múltiplas expressões da cultura afro-brasileira, da religião à música, a região tinha como centro a ‘Pequena África’ (expressão usada pelo escritor Roberto Moura, baseado numa afirmação do artista Heitor dos Prazeres, segundo a qual a Praça Onze seria ‘uma África em miniatura’), berço onde se gerou o samba em sua original forma urbana.” Nei Lopes.

Tia Ciata realizava grandes festividades em sua casa, associadas às comemorações religiosas, pois também tinha sua casa de candomblé; desses festejos participavam todas as tias filhas-de-santo como ela, mais outras amigas como tia Veridiana (mãe de Chico da Bahiana), tia Dada, tia Josefa Rica e tia Tomásia, todas respeitabilíssimas Tias baianas, verdadeiros “úteros” geradores do samba. “Interessante notar que o tratamento 'Tia' é um misto de respeito e carinho usado para designar figuras que, pertencentes ao Candomblé, sobretudo de origem em Angola ou Congo, têm conforme preceitos religiosos, um certo grau ou muitos anos de iniciação, é um tratamento próximo ao de Mãe (Yalorixá).” A Mulher na MPB, Neusa M. Costa. Também eram presença garantida "os bambas" da época como Pixinguinha, Donga, João da Bahiana, Hilário Jovino Ferreira, Heitor dos Prazeres, Sinhô, Caninha, Didi da Gracinda, Marinho que Toca (pai do compositor Getúlio Marinho), Mauro de Almeida, João da Mata, João Câncio, Getúlio da Praia, Mirandella, Mestre Germano (genro de Ciata), China (irmão de Pixinguinha) e Catulo da Paixão Cearense. Foi neste ambiente, onde se juntavam fundadoras de Ranchos, conhecedoras de diversos ritmos e sons africanos, mães e avós de grandes compositores e ritmistas e esses “bambas” que nasceram, se criaram e tornaram parte deste meio, que surgiram diversos sambas, entre eles ‘Pelo Telefone’, festejado como o primeiro samba gravado na historia.

“A figura de Tia Ceata surge nos textos como realmente a figura propiciatória, aquela que cria condições para que ajam as forças da Natureza, tal qual age a Mãe de Santo, Yalorixá, no culto africano: sua ação não é de criar ou gerar, ela própria, mas sim a de favorecer, de participar com seu instinto, ‘força de axé’ e conhecimento do ato de criação.” A mulher na MPB, de Neusa M. Costa. “Rancho que saísse e não fosse à casa da Asseiata, não era tomado em consideração, era o mesmo que não ter saído. Os sambas na casa de Asseiata eram importantíssimos, porque, em geral, quando eles nasciam no alto do morro, na casa dela é que se tornavam conhecidos da roda. Lá é que eles se popularizavam, lá é que eles sofriam a critica dos catedráticos, com a presença das sumidades do violão, do cavaquinho, do pandeiro, do reco-reco e do ‘tabaque’.” Na Roda do Samba, jornalista Vagalume.

Quanto ao vocábulo “samba”, existem várias versões de seu nascedouro. Uma delas diz ser originário do árabe, mais precisamente mouro, quando da invasão desse povo à Península Ibérica no século VIII, sendo o termo original “Zambra” ou “Zamba”. Há quem diga que é originário de um dos muitos dialetos africanos, possivelmente do Quimbundo: “Sam” = dar, “Ba” = receber, ou ainda “Ba” = coisa que cai.

Vejamos o que diz Buci Moreira em depoimento a Fernando Faro, no Progama Ensaio, gravado em 12/12/1973. “Hilaria de Almeida, pseudominada [sic] Tia Ciata, porque foi ela quem fundou o primeiro rancho carnavalesco dentro do Brasil, chamava-se Rosa Branca. A minha avó era por sinal uma crioulinha muito bonitinha, sabe? ... Se eu fosse da época da minha avó, acho que a minha avó estava roubada, porque ela era uma belezinha de crioulinha, muito bonitinha e muito boa, distinta. Era da lei de candomblé, ela era mãe-de-santo. Aí ela chegou a curar inúmeras pessoas atrapalhadas de vida, doentes, pessoas doentes da alma; ela curava, ela tinha aquele dom... e, alias, ela me salvou, porque eu estive, em criança, desenganado dos médicos; ela me recuperou, foi ela quem me deu a vida. (...) Ah, inúmeros ... Aqueles boêmios todos da época andavam lá, os artistas todos da época. Pixinguinha, as vezes, ia e ficava em casa e não saia. A maioria chegava em minha casa e cismava de não ir embora pra casa, ficava ali mesmo. Lá tinha oito quartos, era grande pra chuchu! O João da Bahiana era permanente, a visita dele era permanente.”

Sua forma de tocar instrumentos de ritmo, que fez escola, e a maneira de dançar o samba “miudinho”, de forma magistral, que aprendeu com sua avó, tornaram-se sua marca registrada. Suas musicas foram gravadas por Francisco Alves, Mario Reis, Geraldo Pereira, Linda Batista, Carmem Miranda, Aracy de Almeida, Patrício Teixeira, entre outros. Seus principais sucessos são Não põe a mão, Quem Pode Pode, Não Precisa Pagar, Linda Tarde, Beijos, Festa na Roça, Porque é Que Você Chora, Anda Vem Cá. “O tamborim é que nós usava pesado ..., porque a policia repreendia na rua e os nossos pais repreendia ..., porque o samba é bom, e nós ficava nos quintais ‘tuco tico tuco tico tuco ...’, e aqui o couro comia, mas parece até que o samba ficou assim frenético devido as bordoadas que seus criadores recebiam, né?, pelos aplique, que a vara de marmelo comia... Porque naquele tempo era vara de marmelo, o jeito como que as nossas mães nos repreendiam... metia a vara de marmelo... e a gente às vezes saia pulando, mas aquilo no outro dia... vinha o samba outra vez, cada um pegava um pedacinho de pau, uma coisa qualquer e pronto, ia batucando. E ai eu fiquei muito forte em ritmo. Em ritmo eu sou forte mesmo. (...) Isso de fazendo ritmo já vem de, de ... eu creio que eu já nasci fazendo ritmo ... dez anos depois do meu nascimento, eu estava ritmando.”