terça-feira, 5 de julho de 2011

Tempo

O tempo encrava na gente
raiz profunda
em busca da água que fica
no chão submersa.

Fincado na terra seca
o tempo seca
o exercício do sorriso
que se perdeu

há muito
há muito
há muito.

Breve tempo que procura
as ondas do meu sonho
navio escuro que partiu
tão cedo do cais prematuro.

Sua memória
tange a fazenda
do boi imenso
Bordado num pano rústico.

Imensa vida
Imensa vida
Imensa vida.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Breve Historia da MPB (8a. parte)


Roberto Martins é um, entre os vários artistas fundamentais, que freqüentaram a Praça Onze naqueles tempos idos, no início do século XX, onde se localizava a casa de Tia Ciata, berço do samba. O samba durante muito tempo teve como sua figura inaugural o violonista e compositor Donga, nascido no dia 5 de abril de 1889, filho de pai pedreiro e tocador de bombardino, com a famosa Tia Amélia, do grupo das baianas da Cidade Nova, cantadeira de modinhas, festeira e mãe-de-santo, desde os 4 anos já freqüentava a casa de Tia Sadata, na Pedra do Sal, beco do bairro da Saúde. Por volta de 1893, os baianos que freqüentavam a casa de Tia Sadata fundaram o que, segundo Donga, foi o primeiro rancho do Rio de Janeiro, o Dois de Ouro, onde desfilou como ‘porta-machado’, figurante que abria o desfile brandindo um pequeno machado, em uma dança parecida com a capoeira. Passou a infância entre ex-escravos e negros baianos, com quem aprendeu o jongo, afoxé, dança-de-velhos entre outras danças provenientes da macumba e candomblé e ritmos populares que serviriam de base para sua carreira musical. Começou a tocar cavaquinho, de ouvido, e passou para o violão em 1917 tomando aulas com o famoso Quincas Laranjeiras, inventor de um método revolucionário.

Juntamente com João da Baiana, Caninha, Sinhô, Pixinguinha, Didi, Gracinda, Buci Moreira, entres outros, Donga freqüentava a casa de Tia Ciata, onde, em 1916, nasce Pelo Telefone, que ele registra como seu na Biblioteca Nacional, ato que foi contestado pelo grupo, pois consideravam a criação de caráter coletivo, por ser oriunda de partido-alto, em que todos improvisavam versos. Mas a grande importância de sua atitude, motivado pelo advento da indústria fonográfica e visando a ampliação das possibilidades de uma música antes restrita ao ambiente do seu povo negro, foi ter “introduzido o samba na sociedade”, dando ao samba o status indiscutível de gênero musical brasileiro pois foi historicamente a primeira obra do gênero samba a receber estatuto legal, o que o governo de Getúlio Vargas, na década de 1930, viria convalidar.

“Vivia-se, entretanto, no Brasil, pelos primeiros anos do século 20, um clima absolutamente desfavorável a qualquer expressão cultural emanada do povo negro. Menos de duas décadas tinham-se passado da extinção legal do trabalho escravo e a sociedade brasileira procurava de todos os modos, apagar a ‘mancha africana’. Assim, em termos musicais, ao tempo das chapas de gramofone, que eram os primitivos suportes fonográficos, gravavam-se polcas, valsas, modinhas, maxixes, lundus etc.

Mas o samba propriamente dito (e o termo ‘samba’ designava qualquer batuque de negros) tinha interesse apenas etnográfico, sem qualquer possibilidade mercadológica. (...) À parte, então, esse particular interesse etnográfico, do ponto de vista mais geral, o samba era prática marginal, desclassificada. Era a música dos libertados, porém deserdados pela Abolição, dos desordeiros, dos capadócios, da malta enfim. E por isso era reprimido pela ordem constituída, num estado de coisas que, menos ou mais brandamente, veio até a década de 1930. ‘Os sambistas, cercados em suas próprias residências pela polícia, eram levados para o distrito e tinham seus violões confiscados’ contava Donga ao escritor Muniz Sodré, conforme transcrito no livro ‘Samba, o dono do corpo’ (Rio, Codecri, 1979). ” Donga, um Retrato Ampliado de Lygia Santos.

sábado, 7 de maio de 2011

Constatação

No tempo de mudança, pegou a andar, porque andar é morrer um pouco.
E andando esperava seu passo se constituir caminho.
Para todas as células
Escalavradas
Há um pouco de terra
Que as cubra
Que as tome
Que as consuma como ato.
Porque o único ato
É ser.

Passarinho passarinho
Que vai remando os ares
Passarinho passarinho
A guerra é o deus que o apoia
No céu
Diante dos homens
E suas construções
De paz duvidosa.

Passarinho não anda
Que conquistou asas.

No tempo de mudança pegou a andar, porque andar
É nossa união à terra
De pés descalços
Pele, pedra e pó.

Entorna a moringa
Em copo de barro.

A água denunciará tua sede.

E afirmará,
Todos os dias no fio das horas,
A medida que os homens
Não terão mais
Quando enfim seus passos
Se tornarem voo.


sexta-feira, 29 de abril de 2011

Noite. (Noite é tarde deixada para trás)

A tarde deixada para trás.

A violência das mãos
Segmentadas
Agora some
No risco da estrela
Na atitude do céu
Que o inverno veste.

É um céu paciente. Em pontos de luz
Costura a noite.

O prazo da vida escoa por entre as linhas.

Ah a toada do tempo
Nas pedras da estrada
No canto sob janela antiga
Nos passos por tantas ruas pequenas.

O tempo cantor ensinou os pássaros.

Eles sabem que a infinita medida
Limita nossa canção na terra.

Lavrar a alma é ato de plantio mais corajoso.

Por isso cantam-se canções enquanto a semeadura
É imperativo para a flor da aurora.

A tarde deixada para trás.

A noite é cama para as mãos que carregam sementes.
A noite é descanso para a fertilidade da terra.
Pão para sua fome.
Fim da nossa vida.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Breve Historia da MPB (7a. parte)

Roberto Martins também revela uma face de Francisco Alves pouco conhecida ou imaginada por todos, afinal ele era o Rei da Voz. “Conheci. Era um cara bom. Chico Alves era bruto, mas era bom de coração. Era Bruto. Ele fazia coisas de criança às vezes. Ele estava conversando com você e cuspia. Você levava ele numa casa para apresentar uma mulher e, de repente, ele cismava e saía porta afora. Ele era meio queimado. (...) A história da Cai Cai? O editor arranjou a gravação e mandou que eu mostrasse ao Francisco Alves. Mas eu tinha cantado a música para o Joel. Eu fazia o seguinte: o primeiro que gostar grava. É como amor, não espera muito, senão não ganha. Aí cantei para o Joel e ele gostou da musica: ‘Você me dá, Roberto?’ – ‘Não sei. Me deram uma incumbência para cantar para o Chico.’ – ‘O Chico não canta esse estilo. Esse estilo batucada não é do Chico.’ Aí fui cantar para o Chico e cantei mal mesmo: ‘É essa música? Essa não’. O Joel gravou e a musica começou a estourar logo no inicio. Ai o Germano [Augusto] veio me dizer: ‘Roberto, o Chico ta doido te procurando, quer falar contigo. Ele está aborrecido. O que tu fez a ele?’ ‘Num sei.’ Eu vi logo que era o negocio da musica. Mais tarde, ele me encontrou no Nice: ‘Você pensa que é malandro? Eu sou malandro da Lapa. Eu que sou o Chico da Lapa.’ – ‘O que há Chico, está zangado por quê? Que isso.’ – ‘Não fica com deboche.’ – ‘Não to com deboche. Diga pra mim o que é?’ - ‘Você cantou pra mim, me engrupiu e depois foi dar para o Joel. Não gravo mais nada seu’. Ficou uns tempos zangado comigo, mas depois gravou uma porção de coisas.”

Luis Nassif considera Roberto Martins o Rei desconhecido do Samba Sincopado. “Quando leio essa produção acadêmica sobre a bossa nova, sustentando que a música brasileira anterior era composta só de dramalhões, coloco no aparelho as músicas de Roberto Martins e me dá uma pena desses pesquisadores…”

“Favela, oi favela
Favela que trago no meu coração
Ao relembrar com saudade
A minha felicidade
Favela do sonho de amor
E do samba-cançãoMinha favela querida
Onde eu senti minha vida
Presa a um romance de amor
Numa doce ilusão
Em uma saudade bem rara
Na distancia que nos separa
Eu guardo de ti esta recordação
Minha favela!
Hoje tão longe de ti
Se vejo a lua surgir
Eu relembro a batucada
Começo a chorar
Favela das noites de samba
Berço doirado dos bambas
Favela, és tudo que posso falar.
Barulho no morro
Foi o que houve num arrasta-pé
Quando Pedro deu um beijo
Na cabrocha do José
Enquanto eles brigavam
Todo mundo assistia
Foi preciso que a policia
Desse fim à valentia
José morreu, e Pedro foi condenado
E a cabrocha foi com outro que vivia apaixonado
E nunca mais ouviu-se um grito lá no morro
Nunca mais ninguém ouviu um apito de socorro
Barulho, barulho, barulho no morro.”

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

passeata

os passos que dei ontem
vêm cheios dos meus silêncios
mal medidos

no canteiro dessa avenida bruta
ou vendo os peixes que adormecem no chão
meus pés descansam

não há movimentos ou perguntas
posto que o dia foi bravo
o dia preparou a maciez da noite

há sempre possibilidades no meio da tarde
alguma luz que recupere a esperança
de que a liberdade ainda rebente

mas está longe e morre a cada eleição
a cada discurso montado
a cada recado da mídia

a liberdade é o silêncio
dos passos que dei ontem
cuidem de mim

eles não precisam de voz
imagem
ou aplausos

navegam o mar dos dias
e abrem amplo espaço
do continente

adormecem como esses peixes
plantados adiante
dentro da terra

e nadam ao curso de cavernas subterrâneas
quando querem ser livres
aguardam a chuva

para brotarem do solo
como palavras na manhã
em campo novo

e seus frutos serão o rio
comprido imenso
que passa ao lado

ainda que não sintamos
nem a umidade nem o sabor
nem a paz

do seu leito.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

sábado, 12 de fevereiro de 2011

A próxima distância

O vento enganado que me esconde a noite
Tem por si no engano
De me encontrar.

Se pedras arremesso me vem na fronte
O afago amargo
Do ar doce.

Onde planto flores em risco azul
Pintam-se madrigais
De um soco exato.

A poesia vira mentira de nossa verdade.
E verdade escrita
É ficção, alegoria.

Nada do mundo
Corre triste.

O que sinto é triste.

O dia passa com o que penso.
E morre em palavra usada
Quando posto no papel
O tempo do lápis
Esquecendo o grafite
No espaço branco.

Espaço infinito
Que não suporta o tamanho da vida.
Tão preciso e pequeno.

Fez um tempo de água
Fez um tempo de pedra.

Viver é partir sempre
No mesmo lugar.

Bem longe
Bem longe.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Breve Historia da MPB (6a. parte)


O Programa chamado Ensaio, antes MPB Especial, produzido desde 1969, exibido pela TV Tupi e até hoje pela TV Cultura, trás, de uma maneira mais superficial, o artista convidado executando suas composições ou musicas mais conhecidas entre depoimentos sobre sua vida e carreira. Olhando mais de perto conseguimos captar em suas palavras, na maneira que se expressa, nas historias de sua vida e dos relacionamentos com outras figuras históricas, a essência deste artista como pessoa [sua alma], sua verdadeira qualidade artística, no caso dos ‘apenas’ compositores conseguimos perceber toda sua noção musical e total domínio do fraseado por mais que não sejam grandes interpretes. Para que possamos perceber tudo isso, precisamos estar livres de todo e qualquer pré-conceito musical, porque em alguns casos ouviremos grandes interpretações, sem aquela voz macia e tal, mas carregadas de emoção e apuro técnico, valiosas perolas musicais.

Fernando Faro, diretor do programa, teve em alguns casos uma sorte grande, como o que aconteceu com Roberto Martins, pouco badalado compositor, mas um dos grandes da era de ouro da MPB, nascido em 29/1/1909 e tendo falecido em 14/3/1992, gravou o programa em 1991, por questão de meses foi possível ter seu depoimento e interpretações emocionadas como a de Favela, feita em parceria com Waldemar Silva, seu primeiro grande sucesso e talvez o maior, gravada por Francisco Alves em 1936, recebeu mais de 100 gravações; teve também enormes sucessos na voz de Orlando Silva, com Meu Consolo é Você e Dá-me Tuas Mãos; Ciro Monteiro gravou Beija-me; Nelson Gonçalves projetou-se com uma composição sua, o foxRenuncia; fez em parceria com Wilson Batista, o samba precursor da questão social Pedreiro Waldemar, que estourou no carnaval de 1949, interpretado por Blecaute.

“Que eu gravei até agora? Gravei 384 musicas, mas tenho 56 anos de carreira. (...) Conheci. Desde menino, conheci a praça Onze. Você quer que eu fale, mas não vou falar das escolas de samba, porque antes tenho que falar como era a praça Onze. A praça Onze, vocês deviam conhecer. Tinha a rua Senador Eusébio, a Visconde de Itaúna e tinha a rua Santana e Marques de Pombal, ela ficava no meio, onde tinha a gafieira As Colombinas. A Kananga do Japão nunca foi na praça Onze. (...) Vou te falar dos batuqueiros. Depois que acabava o carnaval e as batalhas de confete que tinha na praça Onze e naquelas ruas do Centro, à meia-noite, o povo se recolhia. Então vinham os malandros, o Quico da Favela, o Waldemar da Babilônia, o Madureira do Engenho Velho, O Brancura do Estácio, o Mulatinho do Catete (esse cara foi morto com 18 tiros na praça Onze, quando ele quis pular a grade da escola que tinha ali e não conseguiu, por causa de batucada). O Mulatinho do Catete era o malandro do Catete. Naquela época, cada lugar tinha um malandro e havia a batucada pesada, aquela Derruba, Bota no Chão. Quando chegava a policia, era um bate-fundo medonho, todo mundo corria. Essa é a praça Onze primitiva.”

E ele continua falando sobre a batucada, muito parecida com a roda de samba conhecida em São Paulo como tiririca ou jogo da pernada. “Era uma roda de samba e ainda tinha o ‘compadre’. Na batucada tinha sempre um ‘compadre’. É aquele batuqueiro que, quando você pegar um cara que é faixa dele, entra no meio e não deixa pegar. Essa cara passa, canta, empurra a perna devagar e dá a volta, vai cantando. Quem cantava era ele e os outros respondiam. Era uma espécie de partido alto. (...) O partido alto não é como eles dizem agora que é o eles dizem agora que é pagode. Pagode é o lugar onde você vai cantar e não a musica. A música era

partido alto. Naquela época, eu fiz uma musica:

O teu riso tem, tem, tem, tem

Tem qualquer coisa que me domina, meu bem

O teu riso tem, tem, tem, tem

Tem qualquer coisa que me domina, meu bem

Tua boca é uma alvorada

Nunca vi sorriso assim

Sem teu riso não sou nada

Dá um sorriso pra mim.

De lá respondiam:

Mina minha menina

Mina dos olhos veludos

Se o teu pai ... homem sério

Teu amor teria tudo

A noite toda era assim, mudava um refrão e botava outro.”


segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Breve Historia da MPB (5a. parte)

Quanto ao vocábulo “samba”, existem várias versões de seu nascedouro. Uma delas diz ser originário do árabe, mais precisamente mouro, quando da invasão desse povo à Península Ibérica no século VIII, sendo o termo original “Zambra” ou “Zamba”. Há quem diga que é originário de um dos muitos dialetos africanos, possivelmente do Quimbundo: “Sam” = dar, “Ba” = receber, ou ainda “Ba” = coisa que cai.

Vejamos o que diz Buci Moreira em depoimento a Fernando Faro, no Progama Ensaio, gravado em 12/12/1973. “Hilaria de Almeida, pseudominada [sic] Tia Ciata, porque foi ela quem fundou o primeiro rancho carnavalesco dentro do Brasil, chamava-se Rosa Branca. A minha avó era por sinal uma crioulinha muito bonitinha, sabe?

... Se eu fosse da época da minha avó, acho que a minha avó estava roubada, porque ela era uma belezinha de crioulinha, muito bonitinha e muito boa, distinta. Era da lei de candomblé, ela era mãe-de-santo. Aí ela chegou a curar inúmeras pessoas atrapalhadas de vida, doentes, pessoas doentes da alma; ela curava, ela tinha aquele dom... e, alias, ela me salvou, porque eu estive, em criança, desenganado dos médicos; ela me recuperou, foi ela quem me deu a vida. (...) Ah, inúmeros ... Aqueles boêmios todos da época andavam lá, os artistas todos da época. Pixinguinha, as vezes, ia e ficava em casa e não saia. A maioria chegava em minha casa e cismava de não ir embora pra casa, ficava ali mesmo. Lá tinha oito quartos, era grande pra chuchu! O João da Bahiana era permanente, a visita dele era permanente.”

Sua forma de tocar instrumentos de ritmo, que fez escola, e a maneira de dançar o samba “miudinho”, de forma magistral, que aprendeu com sua avó, tornaram-se sua marca registrada. Suas musicas foram gravadas por Francisco Alves, Mario Reis, Geraldo Pereira, Linda Batista, Carmem Miranda, Aracy de Almeida, Patrício Teixeira, entre outros. Seus principais sucessos são Não põe a mão, Quem Pode Pode, Não Precisa Pagar, Linda Tarde, Beijos, Festa na Roça, Porque é Que Você Chora, Anda Vem Cá. “

O tamborim é que nós usava pesado ..., porque a policia repreendia na rua e os nossos pais repreendia ..., porque o samba é bom, e nós ficava nos quintais ‘tuco tico tuco tico tuco ...’, e aqui o couro comia, mas parece até que o samba ficou assim frenético devido as bordoadas que seus criadores recebiam, né?, pelos aplique, que a vara de marmelo comia... Porque naquele tempo era vara de marmelo, o jeito como que as nossas mães nos repreendiam... metia a vara de marmelo... e a gente às vezes saia pulando, mas aquilo no outro dia...

vinha o samba outra vez, cada um pegava um pedacinho de pau, uma coisa qualquer e pronto, ia batucando. E ai eu fiquei muito forte em ritmo. Em ritmo eu sou forte mesmo. (...) Isso de fazendo ritmo já vem de, de ... eu creio que eu já nasci fazendo ritmo ... dez anos depois do meu nascimento, eu estava ritmando.”

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Breve Historia da MPB (4a. parte)


Por um momento retorno a 1870, ano em que chega ao Rio de Janeiro, Hilaria Batista de Almeida, mais conhecida como tia Ciata, nascida no dia 23/4/1854, em Santo Amaro da Purificação, Bahia; cozinheira, sempre garantiu parte do sustento de sua família graças a seus famosos quitutes; fundou o Rancho Rosa Branca, um dos primeiros a existir no carnaval [rancho é o tipo de organização carnavalesca anterior a escola de samba]; filha-de-santo de João Alabá, de Omulu, como suas amigas tia Sadata (fundadora do Rancho da Sereia), tia Amélia do Aragão (Amélia Silvana de Araujo, mãe de Donga), tia Preciliana do Santo Amaro (Preciliana Maria Constança, mãe de João da Bahiana), tia Mônica, tia Bebiana e tia Gracinda (esposa do sacerdote islâmico Assumano Mina do Brasil). Em 1904 fixou residência na Rua Visconde de Itaúna, 117, em frente à Praça Onze, onde morou até morrer, em 1924. O casarão era uma legítima casa de cômodos, com seus 6 quartos, 2 salas, um longo corredor e quintal com árvores. Foi ali que escreveu seu nome como a figura de maior importância na criação do samba.

“A partir dos anos de 1870, na região que se estendia da antiga Praça Onze de Junho até as proximidades da atual Praça Mauá, compreendendo as antigas freguesias e localidades de Cidade Nova, Santana, Santo Cristo, Saúde e Gamboa constituía-se o núcleo principal da comunidade baiana na cidade do Rio de Janeiro, antiga capital do Império e mais tarde da República. Pólo concentrador de múltiplas expressões da cultura afro-brasileira, da religião à música, a região tinha como centro a ‘Pequena África’ (expressão usada pelo escritor Roberto Moura, baseado numa afirmação do artista Heitor dos Prazeres, segundo a qual a Praça Onze seria ‘uma África em miniatura’), berço onde se gerou o samba em sua original forma urbana.” Nei Lopes.

Tia Ciata realizava grandes festividades em sua casa, associadas às comemorações religiosas, pois também tinha sua casa de candomblé; desses festejos participavam todas as tias filhas-de-santo como ela, mais outras amigas como tia Veridiana (mãe de Chico da Bahiana), tia Dada, tia Josefa Rica e tia Tomásia, todas respeitabilíssimas Tias baianas, verdadeiros “úteros” geradores do samba. “Interessante notar que o tratamento 'Tia' é um misto de respeito e carinho usado para designar figuras que, pertencentes ao Candomblé, sobretudo de origem em Angola ou Congo, têm conforme preceitos religiosos, um certo grau ou muitos anos de iniciação, é um tratamento próximo ao de Mãe (Yalorixá).” A Mulher na MPB, Neusa M. Costa. Também eram presença garantida "os bambas" da época como Pixinguinha, Donga, João da Bahiana, Hilário Jovino Ferreira, Heitor dos Prazeres, Sinhô, Caninha, Didi da Gracinda, Marinho que Toca (pai do compositor Getúlio Marinho), Mauro de Almeida, João da Mata, João Câncio, Getúlio da Praia, Mirandella, Mestre Germano (genro de Ciata), China (irmão de Pixinguinha) e Catulo da Paixão Cearense. Foi neste ambiente, onde se juntavam fundadoras de Ranchos, conhecedoras de diversos ritmos e sons africanos, mães e avós de grandes compositores e ritmistas e esses “bambas” que nasceram, se criaram e tornaram parte deste meio, que surgiram diversos sambas, entre eles‘Pelo Telefone’, festejado como o primeiro samba gravado na historia.

“A figura de Tia Ceata surge nos textos como realmente a figura propiciatória, aquela que cria condições para que ajam as forças da Natureza, tal qual age a Mãe de Santo, Yalorixá, no culto africano: sua ação não é de criar ou gerar, ela própria, mas sim a de favorecer, de participar com seu instinto, ‘força de axé’ e conhecimento do ato de criação.” A mulher na MPB, de Neusa M. Costa. “Rancho que saísse e não fosse à casa da Asseiata, não era tomado em consideração, era o mesmo que não ter saído. Os sambas na casa de Asseiata eram importantíssimos, porque, em geral, quando eles nasciam no alto do morro, na casa dela é que se tornavam conhecidos da roda. Lá é que eles se popularizavam, lá é que eles sofriam a critica dos catedráticos, com a presença das sumidades do violão, do cavaquinho, do pandeiro, do reco-reco e do ‘tabaque’.” Na Roda do Samba, jornalista Vagalume.