quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Breve Historia da MPB (2a. parte)


Noel Rosa, não o melhor, mas o mais importante compositor da música brasileira, pois antes dele o único tema das letras era o romantismo, escreveu canções que são regravadas até nos dias de hoje, como Com Que Roupa?, Feitio de Oração, As Pastorinhas, Feitiço da Vila e Filosofia. “Um sujeito que dizia: ‘Que vou fingindo que sou rico pra ninguém zombar de mim’. ‘Fingindo que sou rico ...’, porque ele era riquíssimo, arquimilionário, de inspiração, arquimilionário de amigos, de tudo. Noel era o próprio samba, Noel era a própria Vila Isabel. Ele imortalizou a Vila Isabel. E se imortalizou em suas obras.” Ciro Monteiro, Programa Ensaio, 1972.

O mesmo Noel, morto em 1937, com apenas 26 anos de idade, deixou mais de duzentas composições, muitas lançadas após sua morte. O Poeta da Vila se reunia num determinado bar preferido, na Guanabara, com o Rei da Voz, Francisco Alves, um dos três maiores cantores da nossa história, pragmático garimpador de compositores, que vivia pelos morros e escolas de samba, em busca de parceiros para seus lançamentos que sempre eram sucesso de público, o que ocorreu entre 1926 e 1952, quando morreu aos 54 anos, em acidente de carro. “Sua morte arrancou lágrimas no Brasil inteiro. Os seus restos mortais foram transportados para esta capital durante a noite, e no dia seguinte filas intermináveis passaram diante do seu esquife. Multidões compungidas, chorosas, saudosas do seu ídolo desaparecido.”, assim noticiou o Jornal do Brasil, em referência ao acontecimento.

Também era presença garantida, ao redor da mesa, nas noites distantes da boemia carioca, Ismael Silva, outro importante compositor, parceiro exclusivo de Chico Alves, durante os anos de 1928 a 1935; um dos fundadores da 1ª. Escola de Samba da história a Deixa Falar que depois se chamaria Estácio de Sá; que divide com Bide (Alcebíades Barcelos) o mérito de ter inventado o tamborim. “Chico Buarque o tem na condição de primeiro mestre. Vinicius de Moraes, que lhe exaltava na obra, em primeiro lugar, ‘aquela perfeita maciez melódica’, reputo-o ‘um dos três maiores do samba carioca’. José Lins Grunewald confirmava-o, ao lado de Sinhô e Noel Rosa, no ‘trio básico de sambistas puros da fase de ouro da nossa música popular.’ ” Moacyr Andrade, Ensaio, TV Cultura. Esta união produziu clássicos como Quem Não Quer Sou Eu, Adeus, A razão dá-se a quem tem, Não Tem Tradução.

Infelizmente, como boa parte dos compositores e ritmistas ligados as raízes de nossa musica, Ismael Silva morreu pobre e solitário em 1978 com 72 anos de idade. “Pois bem, então eu vivo sozinho, infelizmente, mas eu tenho planos feitos, não hei de ficar assim toda a vida, não. Inda tenho que me casar, mesmo assim(...) Sou negro e como negro devo achar meu caminho na vida. A libertação muito recente não modificou em nada nossa situação. Somos postos de lado nas escolas, nos serviços. A identidade que nos envolve é penosa e devemos lutar para preservá-la. (...) Anote ainda duas coisinhas mais aí: o samba provocou a substituição da música européia pela de origem africana, na sociedade brasileira e mais: quando é que a gente poderia imaginar que aquelas brincadeiras fossem dar nisso? Uma coisa de esquina encher avenida? Hoje isso não é mais escola. É universidade, é academia, é faculdade, sei lá! A festa maior. Que coisa! (...) Faço sambas, vivo na pendura – vou ser internado para uma cirurgia. Tenho 72 anos. Quando sair do hospital vou fazer o circuito universitário, me apresentar emshows, cair nas atividades. O velho sambista tem de lutar pela sobrevivência, não é? ” Ismael Silva, Programa Ensaio, 1973 e em depoimentos para livro.


terça-feira, 12 de outubro de 2010

Filosofia

“Os negros da África não possuem, por natureza, nenhum sentimento que se eleve acima do ridículo.
O senhor Hume desafia qualquer um a citar um único exemplo em que um Negro tenha mostrado talentos, e afirma: dentre os milhões de pretos que foram deportados de seus países, não obstante muitos deles terem sido postos em liberdade, não se encontrou um único sequer que apresentasse algo grandioso na arte ou na ciência, ou em qualquer outra aptidão; já entre os brancos, constantemente arrojam-se aqueles que, saídos da plebe mais baixa, adquirem no mundo certo prestígio, por força de dons excelentes. Tão essencial é a diferença entre essas duas raças humanas, que parece ser tão grande em relação às capacidades mentais quanto à diferença de cores.
A religião do fetiche, tão difundida entre eles, talvez seja uma espécie de idolatria, que se aprofunda tanto no ridículo quanto parece possível à natureza humana. A pluma de um pássaro, o chifre de uma vaca, uma concha, ou qualquer outra coisa ordinária, tão logo seja consagrada por algumas palavras, tornam-se objeto de adoração e invocação nos esconjuros. Os negros são muito vaidosos, mas à sua própria maneira, e tão matraqueadores, que se deve dispersá-los a pauladas.”

(KANT, Observações sobre o sentimento do belo e do sublime: pág. 75-76)


“A principal característica dos negros é que sua consciência ainda não atingiu a intuição de qualquer objetividade fixa, como Deus, como leis, pelas quais o homem se encontraria com a própria vontade, e onde ele teria uma idéia geral de sua essência [...] O negro representa, como já foi dito o homem natural, selvagem e indomável. Devemos nos livrar de toda reverência, de toda moralidade e de tudo o que chamamos sentimento, para realmente compreendê-lo. Neles, nada evoca a idéia do caráter humano[...] A carência de valor dos homens chega a ser inacreditável. A tirania não é considerada uma injustiça, e comer carne humana é considerado algo comum e permitido [...] Entre os negros, os sentimentos morais são totalmente fracos – ou, para ser mais exato inexistentes.

(HEGEL, Filosofia da História, pág. 83-86)


“O escravo moderno não difere do senhor apenas pela liberdade. Mas ainda pela origem. Pode-se tornar livre o negro, mas não seria possível fazer com que não ficasse em posição de estrangeiro perante o europeu. E isso ainda não é tudo: naquele homem que nasceu na degradação, naquele estrangeiro introduzido entre nós pela servidão, apenas reconhecemos os traços gerais da condição humana. O seu rosto parece-nos horrível, a sua inteligência parecenos limitada, os seus gostos são vis, pouco nos falta para que o tomemos por um ser intermediário entre o animal e o homem”

(TOCQUEVILLE, A democracia na América: pág. 262).


terça-feira, 5 de outubro de 2010

E TuDo mAiS jOgO nUm VeRsO... Waly...

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

só Luis Melodia salva...

será que foi meu poema que assustou ele?
(a fenda, a escada de incêndio)

ou terá sido meu elogio ligeiro a todo aquele escancaro de arte bem na minha cara?

viver é tão ardido...
acho que vou evitar.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Chuva

Era a janela do meu quarto.

Eu via a chuva
cair sem tempo
e a ventania.

A chuva só vinha pesada
quando
ventava.

Jabuticabeiras gritavam
meu nome
numurrolongo.

E no fio das coisas
estendido
de varal sem roupas
eu atravessava o quintal.

Era o caminho que me levava
para o mundo lá fora
no movimento instável de tudo.

Meus pés sabiam
a linha suave
da cor desmanchada
do aguaceiro...

Chovia porque chovia
e eu ainda pequeno.

Na cozinha,
junto ao pão,
minha mãe rezava,
pedia tanto,
com tal fervor,
que o céu parasse.

Pedia tanto, tanto,
com tal fervor...

Não imaginava
que eu me equilibrava
na alegria.

Queimava palmas
à boca do fogão
(bentas e secas).
Palmas, acalmai...
(a fumaça das cinzas
sequer alcançava o teto)

Nem imaginava.

O Deus a ouvia
e me esquecia.

A chuva então se punha branda
e meu corpo no ar
fugia pro chão de tacos
ao lado da cama.

Meu mundo voltava
ao sussurro descansado
da garoa.

Por tempo eu esperava
o retorno da água,
do ar girante,
do trovão,
de algum relâmpago.
Dormia.

No meu sonho, jabuticabeiras
Gritavam
em meio à alegria
do vento que havia passado.

Rua

E o que vemos são pessoas
Movendo apressadas
O trajeto da manhã.

Enquanto mulheres,
Na sua jornada múltipla,
Pela rua, pela rua,
Tecem a engrenagem dos dias.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Oh, labareda te encostou

Labareda
O teu nome é mulher
Quem te quer
Quer perder o coração
Rosa ardente
Bailarina da ilusão
Mata a gente
Mata de paixão
Labareda- Vinícius de Moraes

sábado, 25 de setembro de 2010

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

reza

Saluba Nanã!
me proteja.

Minha Mãe,
força de tanta força
na minha cabeça

eu visto um colar de botões brancos.

O que fecha abre
o que abre,
fecha
e tudo são círculos.

Tudo são estradas.

Elementos da lama, da muita força das idades
me proteja

que eu preciso caminhar rente.

Minha Mãe,
respeito e chão.

Que tudo são águas.

mãe mulher Iracema,
grávida de mim
tinha desejos imensos de comer terra.

A casa era de barro.
Ela madrugava insônias em busca de colheres,
raspava a parede, o barro da parede, de desejo que tinha
e comia.

mãe mulher Iracema,
guerreira de fala pequena,
de olho exato, de couro
nos pés
pilão.

Saluba Nanã!
me proteja minha Mãe.

Que tenho choros desconhecidos no ventre.

Proteja das calmas, proteja das dúvidas.

Senhora de idades incontáveis
Firme no meio do escuro
Firme desde o saco da criação
Firme Orixá.

Minha Mãe, e se não for?
Perguntas não há.

Mulher de placenta de palito de dendê
me receba.
Porque eu vou nascer.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010


"A natureza criou o tapete sem fim que recobre a superfície da terra. Dentro da pelagem desse tapete vivem todos os animais, respeitosamente. Nenhum o estraga, nenhum o rói, exceto o homem." (Monteiro Lobato)

Breve Historia da MPB (1a. parte)

Estou sempre discutindo o porquê da minha insistência e prazer em ouvir, conhecer e estudar os nomes históricos de nossa MPB, em que se destaca, ao meu ver, o Samba Carioca e o Paulista. Tentarei explicar esse porquê, começarei por uma simples relação e um pouco da história de alguns gênios de ritmo, voz, melodia e letra/poesia que surgiram entre as décadas de 20, 30 e 40.

Pixinguinha, o maior músico da história da MPB, tocava diversos instrumentos com desenvoltura, especialmente a flauta e o saxofone; escreveu dezenas de músicas, como, por exemplo, Carinhoso, uma das composições mais conhecidas e tocadas em nosso país; fez incontáveis arranjos durante o tempo que trabalhou como orquestrador para gravadoras brasileiras; foi quem transformou o chorinho num estilo musical, estilo comparado ao jazz estadunidense pela capacidade de improvisação.

“Mas eu acho que o choro, acima de tudo, assim, de uma forma parecida com o jazz, é um espírito, uma maneira de tocar, de frasear, de sentir a coisa da improvisação, por exemplo, que existe nas duas músicas, mas que é muito diferente numa e na outra. É, o choro tem muito mais... A improvisação é menos ... A improvisação no choro é uma coisa muita mais rítmica (...) Cada vez se descobre que ele é maior do que se pensava. E eu acho que isso é interessante pro brasileiro ficar mais ligado e também sentir um pouco uma dimensão mais ampla, mais universalizante da coisa, da figura, porque o Pixinguinha é grande demais, tem que ser muito estudado e muito tocado, tem muita coisa para fazer sobre esse assunto (...) E teve uma vida toda muito interessante. Eu acho que foi um sujeito fiel a tudo que gostava, que acreditava, a coisa das raízes africanas, foi o cara que fez a síntese do choro, um dos pais da orquestração no Brasil, um monte de coisas.” Henrique Cazes, Programa Ensaio, TV Cultura, 1993.

“Em 1971, um daqueles momentos que levavam seus amigos e considerá-lo santo: sua mulher, dona Beti, passou mal e foi internada num hospital. Dias depois, foi ele acometido de mais um problema cardíaco, foi também internado no mesmo hospital, mas, para que ela não percebesse que também estava doente, colocava um terno nos dias de visita e ia visitá-la como se estivesse vindo de casa. Dona Beti morreu no dia 7 de junho de 1972, aos 74 anos de idade, e ele no dia 17 de fevereiro de 1973.” Pixinguinha, Vida e Obra, Sérgio Cabral.

Pixinguinha gravou, em 1968, o disco intitulado Gente da Antiga, com a presença de João da Bahiana, um dos pais do samba, que foi quem introduziu o pandeiro no samba e um dos maiores ritmistas do prato com faca, que nada mais é que tocar um prato de barro com uma faca de serra, extraindo disso uma sonoridade ímpar. Nos poucos discos que conseguiu gravar, sempre privilegiou os ritmos africanos, gravando corimás, com algumas palavras em dialeto africano, pontos de macumba de sua autoria, macumbas como Sereia e Folha por Folha e ritmos afro brasileiros como Lamento de Inhançã e Lamento de Xangô. Se não bastassem esses integrantes, o disco contou com a presença imponente de Clementina de Jesus, a mais impressionante voz já existente na música brasileira, descendente de escravos, pode-se dizer que sua voz era a ligação entre a senzala e o samba, África e Brasil. “Ficou conhecida como a Rainha Ginga ou Quelé, a primeira homenagem foi dada devido a sua importância e grandeza na música popular, e a segunda devido à corruptela carinhosa de seu nome. (...) Seu pai foi mestre de capoeira e violeiro. Com a mãe, aprendeu os cantos de trabalho, partidos-alto, ladainhas e jongos, assim como corimás e pontos de macumba. Trabalhou muitos anos como empregada doméstica e somente aos 63 anos começou a carreira artística.” Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira. O disco foi gravado em apenas duas semanas, contava com músicas de domínio público que abordam temas das religiões africanas, sambas e choros consagrados, executados com maestria e total harmonia entre os músicos e cantores, pode ser visto como uma apresentação de luxo para quem quer conhecer os estilos, um dos maiores clássicos da MPB.


quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Velamar

Brinco com palavras
Pra me esquecer um pouco.

E fecho o navegar,
Atravesso oceanos,

Sem âncora mergulhada.
A vida deveria ser suave.

Brinco com palavras
Por ter preguiça de dizer.

Apenas por brincar.
A vida não deveria ser séria.

É esquecimento.

E no sono em vento e velamar
outra vida se faz.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Salve o Povo Xucuru

Vejam o Documentario no endereço abaixo:

http://www.nacaocultural.pe.gov.br/documentario-xicao-xucuru/


O grupo Mundo Livre S.A. fez uma música em homenagem ao Cacique Chicão chamada "O Outro Mundo de Chicão Xukuru"

Numa faixa de terra de 28 mil hectares
localizada no Agreste pernambucano,
habitam cerca de 8 mil seres da espécie humana.

Eles não querem vingança
Eles só querem justiça
Querem punição para os covardes assassinos
de seu bravo cacique Chicão

Eles não querem vingança
Eles só querem justiça,
justiça, justiça

Distribuídos por 23 aldeias
Permanecem resistindo após quase 500 anos de massacre e perseguições.
Reivindicando, nada menos, que o reconhecimento e a demarcação da terra sagrada que herdaram de seus ancestrais.

Ele não vai ser enterrado
Ele não vai ser sepultado
Ele vai ser plantado
para que dele nasçam novos guerreiros

As autoridades policiais tinham pleno conhecimento dos atentados e das ameaças.
Ainda assim, nada fizeram para evitar mais este crime, muito conveniente para os latifundiários da região.

"Nós não temos a terra como um objeto de especulação
A gente sabe que quando Deus criou a terra, Ele não criou para ninguém fazer da terra um comércio"

Muito conveniente para os latifundiários da região
Justiça...

Comenta-se que alguns deles têm parentesco com certos figurões da "República Branca", entre eles um, apelidado pelos federais de "Cacique Marcão".

"Então se nós dependêssemos unicamente dos parlamentares brasileiros, então, dos índios do Brasil, não existiria mais nenhum, o resto já tinha sido todo morto queimado, assim como queimaram Galdino"

Ele não vai ser enterrado
Ele não vai ser sepultado
Ele vai ser plantado
para que dele nasçam novos guerreiros

Ele vai ser plantado
assim como vivia
debaixo das vossas sombras
Para que de vós nasçam novos guerreiros.

E a nossa luta não para
E a nossa luta não para
E a nossa luta não para

"Vocês têm certeza, têm consciência de que eu sou ameaçado"
"de que eu sou ameaçado..."

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

O pasto e o mar

Quando a noite chegar
para interrogar meu dia,
procurará nos meandros
da claridade
aquilo que foi quase sol
ao sol a pino,

a penumbra de árvores
sozinhas entre pastos
em linha reta
cortados por estradas de terra,

o pó pegando
no zunido intermitente
da vespa contando as horas
que esperavam no dia quente.

Todo o sono que eu tinha,
movia na rede da tarde.
(outras redes davam peixes)

O mar longe, tão longe,
excluía o pêndulo de tudo,
dos dias atravessados,
da minha infância...

Ele tinha um jeito molhado de moringa,
esse mar,
do tempo deixado de lado
da água dum rio enorme oceano.

O mar circundava o mundo.

E no canto do grande chão
estava eu.
Em busca das poucas sombras
encurtadas pelo sol.

Velas passavam
no pano da água,
jangadas sem peso
na imaginação.

Outras redes
mansamente davam bois.