segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010
Meu lema
Vindo do cansaço dos abraços
De amores ido, já perdidos
Eu me encontrei, morena, em meio a solidão
Jurei não dar nem mais um passo
Que fosse me levar ao encontro da paixão
Do mundo muito eu já sei
Porém, muito tenho que aprender
Não, não quero amar sem paz
Eu já sofri demais
Discreto o amor agora tem que ser
Tudo que ficou pra trás
Já não importa mais
O amor é só você
Não vivo de novelas
Já vi muitas delas
Castelos fantasiados
Sonhos tão azuis
A vida me ensinou, morena
Esse é meu lema
Amar demais só faz pesar a dor
A vida me ensinou, morena
Essa é meu lema
Amar demais só faz pesar a dor.
sábado, 13 de fevereiro de 2010
Carnaval, festa de quem ?
“Publico aqui texto lançado em Junho de 1996 no zine Não Racismo, de minha autoria.”
O Carnaval, infelizmente, deixou a muito tempo de ser uma festa popular, pois o que muito se vê no Carnaval é a simples e pura exploração do sexo, como sua maior virtude. Existem até canais de TV, tipo Manchete, de que ninguém ouve falar durante o ano inteiro, mas que durante o carnaval, por apresentar nas noites “famosos” bailes, voltam a ser lembrados
e assistidos pelo publico.
Porém o ponto mais importante a ser abordado é o da exploração dos negros e pobres, nesta festa que muitos ainda consideram o “maior espetáculo da Terra”. Sendo eles os principais responsáveis pela realização do carnaval de rua, por contribuírem com sua criatividade, ritmos e trabalho. Então eu pergunto: porque a maioria dos destaques das escolas de sambas - madrinha de bateria, destaques dos carros e “diretores das escolas” -, são pessoas brancas e no padrão de beleza globais (racista) ?
Certamente, porque a TV (GLOBO), não estaria interessada em transmitir o carnaval, se ele fosse uma festa realmente popular, e não mais uma maneira de aumentar o IBOPE.
“Os crioulos, é verdade, continuam se divertindo na bateria, na ala das baianas ou no trabalho escravo de empurrar carro alegórico.” Esta frase resume bem o que acontece no carnaval. As pessoas que realmente trabalham pelo carnaval (costureiras, que trabalham o ano inteiro confeccionando as fantasias, outras pessoas que trabalham para construir os carros alegóricos e todas a alegorias para o desfile), na hora mais importante, são jogadas para o segundo plano, em detrimento das pessoas que a Globo quer promover e de outras que tem dinheiro suficiente para realmente se divertir no carnaval.
O carnaval é também uma boa maneira de se vender muita cerveja, a Antártica, Brahma e Kaiser que o digam. E como sempre quem colabora para que isso aconteça é o pobre, que, muitas vezes, gasta o que não tem, somente para entrar na “folia”.
O carnaval é uma ótima maneira de alienar, ainda mais, o povo brasileiro, porque muitas pessoas passam o ano inteiro batalhando (pela própria sobrevivência), suportando as sacanagens do governo, trabalhando para construir um carnaval melhor que o anterior, para que possam se divertir, mas mesmo assim não vêem que continuam sendo exploradas e enganadas, também neste período. O que se vê então é o pobre alienado que se fode o ano inteiro e no Carnaval é tudo Globeleza.
O Carnaval deste ano, no Rio de Janeiro, ajudou a mostrar até onde vai a inconseqüência, por causa do dinheiro que é ganho pela elites com essa “festa”. O prefeito do R.J., havia sido avisado pelas autoridades competentes que entre Dezembro/95 e Fevereiro deste ano, haveria chuvas imensas na cidade, pois foi descoberto um dilúvio em gestação. Porém como o anuncio deste fato, poderia prejudicar muito a realização do Carnaval e os lucros obtidos com ele, as autoridades acharam mais interessante, engavetar o aviso e fazerem vista grossa.
Então, ocorreram as maiores chuvas que a cidade já presenciou , desde que começaram a ser medidas, a mais de setenta anos. E o que se viu, mais uma vez, foi a morte de vários inocentes, que poderiam ser salvos com um bom trabalho de prevenção. Porém além disto não ter acontecido, o que ocorreu foi a total falta de consideração das autoridades, que não se apresentaram no momento preciso e deixaram pessoas, que poderiam ser resgatadas, morrerem soterradas por falta de socorro. Mais de 6500 pessoas desabrigadas e 70 mortas foi o saldo final.
E apesar dessa tragédia, o Carnaval foi realizado, como se nada tivesse ocorrido, com a desculpa que não se pode misturar tragédia com alegria - palavras do presidente da liga das escolas de samba do Rio de Janeiro - e onde fica a tão falada humanidade do povo brasileiro, que sempre que pode tenta ajudar o próximo. Como alguém pode se divertir no Carnaval, com vários conhecidos e até parentes desabrigados e ferrados, com as conseqüências de uma tragédia desse tamanho. Talvez, porque quem realmente dita a vontade do povo brasileiro são as autoridades incompetentes e a mídia inconseqüente, verdadeiros interessados na realização do carnaval como ele é hoje em dia.
quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010
segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010
Perdoando Deus
Clarice Lispector
sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010
sábado, 30 de janeiro de 2010
quarta-feira, 27 de janeiro de 2010
terça-feira, 26 de janeiro de 2010
Testamento de Partideiro
Composição: Candeia
Ao meu amor deixo meu sentimento, na paz do Senhor
E para os meus filhos deixo um bom exemplo, na paz do Senhor
Deixo como herança, força de vontade, na paz do Senhor
Quem semeia amor, deixa sempre saudade, na paz do Senhor
Aos meus amigos deixo meu pandeiro, na paz do Senhor
Honrei os meus pais e amei meus irmãos, na paz do Senhor
Mas ao fariseu não deixarei dinheiro, na paz do Senhor
Pros falsos amigos deixo o meu perdão, na paz do Senhor
O sambista não precisa ser membro da academia
Ao ser natural em sua poesia o povo lhe faz imortal
O sambista não precisa ser membro da academia
Ao ser natural em sua poesia o povo lhe faz imortal
E se houver tristeza que seja bonita, na paz do Senhor
Pois tristeza feia o poeta não gosta, na paz do Senhor
Um surdo marcando choro de cuíca, na paz do Senhor
Viola pergunta mais não tem resposta, na paz do Senhor
Quem rezar por mim que o faça sambando, na paz do Senhor
Porque um bom samba é forma de oração, na paz do Senhor
Um bom partideiro só chora versando, na paz do Senhor
Tomando com amor batida de limão, na paz do Senhor
domingo, 24 de janeiro de 2010
De como uma certa poesia contemporânea têm seu ensimesmamento tomado pela sociedade presente
O ar incômodo, grosso,
faz do menor movimento um esforço,
como andar sob outra atmosfera,
entre panos úmidos, mudos,
num caldo sujo de claras em neve.
Os carros, no viaduto,
engatam sua centopéia:
olhos acesos, suor de diesel,
ruído motor, desespero surdo.
O sol devia estar se pondo, agora
_ mas como confirmar sua trajetória
debaixo desta cúpula de pó,
este céu invertido?
Olhar o mar não traz nenhum consolo
(se ele é um cachorro imenso, trêmulo,
vomitando uma espuma de bile,
e vem acabar de morrer na nossa porta).
Uma penugem antagonista
deitou nas folhas dos crisântemos
e vai escurecendo, dia a dia,
os olhos das margaridas,
o coração das rosas.
De madrugada,
muda na caixa refrigerada,
a carga de agulhas cai queimando
tímpanos, pálpebras:
O menino brincando na varanda.
Dizem que ele não percebeu.
De que outro modo poderia ainda
ter virado o rosto: - Pai!
acho que um bicho me mordeu! assim
que a bala varou sua cabeça?
Claudia Roquette-Pinto. IN: Margem de Manobra, 2006.
segunda-feira, 18 de janeiro de 2010
domingo, 17 de janeiro de 2010
segunda-feira, 11 de janeiro de 2010
Navegação interrompida
Preso em exata posição
Anterior ao asfalto
O animal separa o que existiu
Do momento preciso a atravessar
A pista, o ato de instinto,
Sua decisão.
É navegar terra não propícia
Vestida de piche e pedregulho.
Falsear o campo seguro
Das ervas.
Mas tem que se transpor
Não sei por qual gosto
Um rio assim de perigo
O solo quente do dia
Que se foi.
O focinho apontando o outro lado.
E o vento na tarde-noite
Cortando a entrada do mato!
Paira um certo quê de embriaguez
Na estrela posta primeira
No plano azul do céu.
Antes de todas.
Vem com a tarde, vem com a tarde.
Um pássaro acusa
No pio sonoro
A travessia
Vazia de planejamento
Movida por ação pontual
Do bicho.
Seus passos não se medem.
Acontece um coletivo
Despontando sem entrave
Velocidade de seta.
A gente que ele carrega
Carrega consigo as mãos
Do cansaço cotidiano
E na terra produtiva
De esforço, prisão e fome.
Ônibus do roçado
É rural da solidão
Entregue ao silêncio
De quem não pensa a vida.
Porque são braços,
Suor e faina
Seus pensamentos.
Vem com a tarde, vem com a tarde.
Quase noite.
Então, no encontro perpendicular
Do coletivo
Com o animal,
O choque pairou no cosmos
Penderam, nas nuvens, o grito, ganido ou guincho,
Pedras deram flores
O curso d’água correu inverso.
O indivíduo agora é horizonte, pasta e sangue.
A noite pintou de escuro a engrenagem assassina.
Só não escondeu seu ronco
Que, aos poucos,
Perdeu-se no tempo de seu canto.
No interior, sentados,
Mulheres e homens
Mergulham a cabeça
No sono,
Mãos dadas ou não,
Princípio da morte de todos os dias
Na terra que um dia
Enfim
Irá colhê-los.
O bicho já não mais navega o chão.
É ilha cercada de vermelho por todos os lados.
(hoje não vi as borboletas
azuis
que estendem o fio da vida
por entre os taquarais
da manhã)
sexta-feira, 8 de janeiro de 2010
sexta-feira, 1 de janeiro de 2010
Clarice Lispector
Rifa-se um coração
Rifa-se um coração quase novo.
Um coração idealista.
Um coração como poucos.
Um coração à moda antiga.
Um coração moleque que insiste
em pregar peças no seu usuário.
Rifa-se um coração que na realidade está um
pouco usado, meio calejado, muito machucado
e que teima em alimentar sonhos e, cultivar ilusões.
Um pouco inconseqüente que nunca desiste
de acreditar nas pessoas.
Um leviano e precipitado coração
que acha que Tim Maia
estava certo quando escreveu...
"...não quero dinheiro, eu quero amor sincero,
é isso que eu espero...".
Um idealista...Um verdadeiro sonhador...
Rifa-se um coração que nunca aprende.
Que não endurece, e mantém sempre viva a
esperança de ser feliz, sendo simples e natural.
Um coração insensato que comanda o racional
sendo louco o suficiente para se apaixonar.
Um furioso suicida que vive procurando
relações e emoções verdadeiras.
Rifa-se um coração que insiste em cometer
sempre os mesmos erros.
Esse coração que erra, briga, se expõe.
Perde o juízo por completo em nome
de causas e paixões.
Sai do sério e, às vezes revê suas posições
arrependido de palavras e gestos.
Este coração tantas vezes incompreendido.
Tantas vezes provocado.
Tantas vezes impulsivo.
Rifa-se este desequilibrado emocional
que abre sorrisos tão largos que quase dá
pra engolir as orelhas, mas que
também arranca lágrimas
e faz murchar o rosto.
Um coração para ser alugado,
ou mesmo utilizado
por quem gosta de emoções fortes.
Um órgão abestado indicado apenas para
quem quer viver intensamente
contra indicado para os que apenas pretendem
passar pela vida matando o tempo,
defendendo-se das emoções.
Rifa-se um coração tão inocente
que se mostra sem armaduras
e deixa louco o seu usuário.
Um coração que quando parar de bater
ouvirá o seu usuário dizer
para São Pedro na hora da prestação de contas:
"O Senhor pode conferir. Eu fiz tudo certo,
só errei quando coloquei sentimento.
Só fiz bobagens e me dei mal
quando ouvi este louco coração de criança
que insiste em não endurecer e,
se recusa a envelhecer"
Rifa-se um coração, ou mesmo troca-se por
outro que tenha um pouco mais de juízo.
Um órgão mais fiel ao seu usuário.
Um amigo do peito que não maltrate
tanto o ser que o abriga.
Um coração que não seja tão inconseqüente.
Rifa-se um coração cego, surdo e mudo,
mas que incomoda um bocado.
Um verdadeiro caçador de aventuras que ainda
não foi adotado, provavelmente, por se recusar
a cultivar ares selvagens ou racionais,
por não querer perder o estilo.
Oferece-se um coração vadio,
sem raça, sem pedigree.
Um simples coração humano.
Um impulsivo membro de comportamento
até meio ultrapassado.
Um modelo cheio de defeitos que,
mesmo estando fora do mercado,
faz questão de não se modernizar,
mas vez por outra,
constrange o corpo que o domina.
Um velho coração que convence
seu usuário a publicar seus segredos
e a ter a petulância de se aventurar como poeta.
