quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Cólera

Letras do disco "Pela Paz em Todo Mundo", lançado em 1986.

É Natal?!

É natal?! É natal?! Se é natal não sei?!
Se é natal?! Se é natal?!
Se é natal não sei!!!
Os pobres ficaram bem mais pobres
Os ricos muito muito ricos
O comércio fica aberto dia e noite
Os presentes e chantagens
Todos trocam sem pensar
para no dia seguinte se odiar. (É natal?!...)

Os assaltos multiplicam
Guerras seguem sem parar
Matam animais a toa, só para treinar
Não preciso de pretexto
Não preciso de natal
Todo dia é importante
Todo dia é igual. (É natal?!)


Direitos Humanos


OH! OH! OH! OH! OH! OH! OH!
Quando eu passo a noite nas esquinas
Esperando um ônibus que nunca vem
Vejo mulheres prostituídas
Tento imaginar porquê,
Vejo moleques rasgados, perdidos
Não tem um amigo mas porquê?

DÊ UMA OLHADA PRA ESTAS VIDAS!
DÊ UMA OLHADA PRA ESTAS VIDAS!
ONDE ESTÃO, ONDE ESTÃO
OS DIREITOS DE VIVER???

Eu me lembro falam na declaração
Que nascemos LIVRES, LIVRES POR IGUAIS.
Mas não entendo se escolhemos
Ou se alguém escolheu por nós
Não está certo, alguns tão ricos
Outros não tem nem um amigo...

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Furioso silêncio, registrado

Antes de abrir as cortinas há o ensaio da carochinha

Um terço sou espreguiço diante do precipício inventando genealogias.

Joelho, silencio e franzir de sobrancelhas saíram paternos.

Gigante desajeitado abre alas para olhares no corredor: processos.

Tenho reparado nos sinônimos para detalhe: fenda, cicatriz, beco

No rosto das pessoas.


Muita saudade da idéia de mim que colava.

Agora salto
cerca e envidraço telhados.

Alegria vêm em potes cor de praia,

Na esquina a vida à venda no atacado.

Falar de si é dar movimento ao personagem.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Explicação conveniente

Sossega, canção!
Fazendo poesia não entristeço.
Quem entristece
São os poemas.

Aniversário

Tenho uma palavra guardada
Mas move sem intenção
Seu percurso e sentido.

Às vezes nasce uma árvore
No vento que se resta em ânsia
Outras morre um segredo
Na água que se sussurra em peixe

Manso que corre os canais da minha terra.

Acendo um cigarro.
A vida é feliz pra quem?

A poeira sinto da estrada
O golpe tênue da viola.
Maria, por que chora o sítio
João, por que tanto a dor

Desse roçado de névoa
Dessa marmita do chão?

Tenho uma palavra nua
Que singra terna quando vejo
Mulheres e homens
Partilhando o alimento
Na calçada suja
E o cigarro de depois.

Os carros da avenida,
Os transeuntes satisfeitos,
Me põem só
Ponto no meio do sol insuportável da cidade.
E sequer percebem
Que essa é a minha gente.

Ainda que sua revolta seja surda
E tenha no silêncio seu primeiro e último grito.

Ah, poeira, sinto sua chegada.
Cobrirá a alegria daquele que pensa em paz
E sabe da próxima forma de nascer perfeito.

Ficarei com o defeito.

É mais humano
Mais triste
E não se declara.

No entanto, no campo largo da vida, é a única presença
De quem vê a luz
Depois do parto.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Aos Maranduvás!

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

segunda feira

Imagem: Fábio Franco de Moraes


Era depois da esperança de dormir, levantou fazer um chá qualquer.

Clementina e Carolina Maria são ambas de Jesus

Tenho meia fruta pro contado do busão e ganho outra meia na voltinha amanhecendo, rodiada de idas.

A gente vai ali viver um amor eterno e daqui um pouco volta cheia de paninhos sujos pra lavar na pia...

Avesso de verso é revide, adverso da paz: centenas de flores de amora no intervalo do branco (a paixão).

Mas não foi assim.

Era depois de um chá que preparei pra tomar sozinha.

Lá sentada na sombra dos paninhos limpos,


permaneci olhando: "formigas tem uma disponibilidade de dispor da vida que chega a ser

bonito".

Estava escrito na placa no fim do canteiro, ao lado de uma segunda com os dizeres "é proibido

pisar no outro".

Um sopro histórico de MPB. (7ª. Parte)

Outro grande marco na carreira de Geraldo Filme, é a musica “Tebas”, na qual conta a historia do negro escravo, que construiu a primeira catedral da Praça da Sé e também o chafariz da Misericórdia, isso em 1700 e poucos, ele canalizou a cidade, puxando água do vale do Anhangabaú com tubos, feitos com papel velho e betume. Curioso com a expressão, do tempo de seus avós, que denominava quem sabia fazer tudo de tebas: fulano é um tebas. Ele fez uma pesquisa na Cúria Metropolitana, no Correio Paulistano e no jornal italiano, a Fanfulha. “Na Cúria não tem acesso aos livros, mas eu me apresentei como universitário. Se eles pensassem que era pra fazer enredo, não iam deixar. Lá levantei que esse Tebas conhecia tudo de alvenaria com 21 anos de idade. Então ele parava todo dia em frente ao convento do Carmo, estava sempre parado ali, e um dia o padre Justino, que era o capelão lá, perguntou: ‘O que você faz ai todo dia? ’. Ele disse: ‘Fico olhando pra saber porque não tem torre’. ‘Porque a gente não sabe fazer’. Ele falou: ‘Eu sei’. O padre acreditou nele e foi lá na fazenda Taponhoem, no Paraíso, naquela região em que hoje está a Brahma, conversou com o sinhô dele. Lá ele viu um monte de obras em alvenaria e quis comprar. O sinhô disse: ‘Não precisa comprar, leva ele’. Então o escravo fez um acordo com o padre: ‘Eu construo a catedral com vocês, mas o primeiro casamento lá tem que ser o meu’. (...) As escravas iam buscar água na fonte naqueles cântaros. Eu tenho ainda esse mapa que xeroquei do jornal, parte da Liberdade e aquele Centro todo canalizado por ele. Tebas, o Escravo é o enredo. Ai os estudantes falaram: ‘Onde você levantou isso?’. Tebas pra eles é só uma cidade da Grécia, mas não sabiam que tinha um aqui. Tanto que em 25 de janeiro fiz um protesto contra aqueles painéis na Praça da Sé, que dá o nome dos autores, dos construtores. A catedral, a primeira catedral que esse negro construiu, o chafariz da Misericórdia estão expostos lá, mas não dá o nome do autor. Mas a gente sabe que era ele."

Tebas, negro escravo
Profissão alvenaria

Construiu a velha Sé
Em troca pela carta de alforria

Trinta mil ducados que lhe deu padre Justino
Tornou teu sonho realidade
Daí surgiu a velha Sé
Que hoje é o marco zero da cidade
Exalto no cantar de minha gente
A sua lenda, seu
passado, seu presente
Praça que nasceu do ideal

E praça escravo é praça do povo

Velho relógio
Encontro dos namorados
Me lembro ainda dos bondinhos de tostão
Engraxate batendo a lata de graxa
Camelô fazendo pregão

O tira teima do sambista do passado
Bexiga, Barra Funda e Lavapés
O jogo da tiririca era formado
O ruim caia e o bom ficava de pé
No meu São Paulo, oi lelê era moda
Vamos na Sé que hoje tem sa
mba de roda
No meu são Paulo, oi lelê era moda
Vamos na Sé que hoje tem samba de roda

Como outros que tiveram fundamental importância na historia do Samba e do Carnaval, ele fala disso com muita saudade, ironia e tristeza pela perda total da essência destes movimentos culturais. “O carnaval de São Paulo? Eu, graças a Deus, vi carnaval em São Paulo, porque hoje em dia é espetáculo. Os próprios sambistas estão preocupados com os carros alegóricos, que eu chamo de ‘porta-veado’. As meninas sacudindo o bumbum, a televisão não pega outra coisa, não pega ninguém sambando no pé, não se preocupa com musica. Os itens que tem ligação com o samba não estão interessando, o que esta interessando é a beleza, aquela coisa toda. Mas eu peguei carnaval quando todo mundo brincava. A gente tomava o bonde, fantasiado, ia na Cidade da Folia, que é um reduto de samba que se criou na década de 40, quando nós perdemos o direito de brincar na rua. Então levava os cordões e as escolas pra lá. (...) Não é como hoje em dia, São Paulo tinha carnaval, todo mundo brincando. Eu tenho esse material que pertence ao Estado, mas eles estavam jogando fora. Eu recolhi com o Sergio Lara e fizemos uma mostra na Casa de Cultura Mazzaropi, do carnaval de 25. Esses carros alegóricos, essas pizzas que põe mulher em cima, nessa época já tinha.”

A família sempre foi importante na formação dos grandes sambistas, a maioria gostava de grandes festas, no seu batizado foram três dias de festa, não tinha como ele não gostar daquilo. “Meu pai viveu uns tempos no Rio, então ele gostava daquele negócio. Ele dizia: ‘Lá no Rio sai 30 cuíca na escola, 40 surdo, tantas malacacheta. E vocês aqui com esses couros de gato?’ Eu e o Zeca esfolava uns bichaninhos para empachar tamborim. Zeca da Casa Verde, meu parceiro de sempre, desde criança que a gente ta junto. Então eram aqueles tamborins quadrados. Não tinha tarraxa, era tachinha e fogo e dá-lhe jornal. De vez em quando procurava: ‘Cadê fulano que não ta tocando?’ Ele estava esquentando o surdo lá atrás da escola.”

“Mulheres ligadas ao samba da velha guarda: a falecida Sinhá, dona Eunice da Lavapés, dona Olímpia do Bixiga, Donata, que foi a primeira-dama do samba, era a mulher que puxava o samba na avenida, do tempo sem microfone, lá da Barra Funda. A Donata lembra tudo que cantava nos cordões, desde muitos anos. Ela era o gogó da avenida, vinha no meio da ala passando o samba pra todo mundo. (...) Agüentava, tranqüilo, aquelas nega veia agüentava. Pra que você pensa que eles mantêm a Ala das Baianas? As bonequinhas só rebolam, as baianas seguram o repuxo. É nega acostumada a cantar em terreiro. (...) A primeira escola de samba foi a Lavapés, da Madrinha Eunice, que está viva até hoje, com 82 anos ainda está comandando a escola dela. Sua benção, Madrinha Eunice, pioneira do samba em São Paulo, axé, minha tia.”

“O Cordão do Vai-Vai! Eu gostava de ver o Cordão do Vai-Vai. Cordão é uma modalidade diferente. Por sinal, só teve em São Paulo e Rio Grande do Sul. É batuque pesado, mas a divisão na boca é marcha. A gente chamava de marcha sambada. O carioca está fazendo hoje, mas a gente já fazia antigamente. É a marcha sambada. (...) Não é bem que eu fiz para varias. A minha bandeira é a bandeira do samba. Na escola em que eu estiver, eu defendo ela mesmo pra valer, ta me entendendo? Lá no Peruche, eu tive a felicidade de apresentar enredos e ganhar o samba, nessa altura o samba já estava na cabeça e ninguém ganhava mesmo. Tradições e Festas de Pirapora é exatamente onde o pessoal saía daqui pra fazer o samba lá, em Pirapora, porque ali estava proibido e era permitido lá nas festas de santo.”

Seu samba-prece Silêncio no Bixiga, homenagem ao amigo Pato N´Agua, morto misteriosamente, até hoje é um hino de todos os sambistas paulistanos:

Silêncio, o sambista está dormindo
Ele foi, mas foi sorrindo
A notícia chegou quando anoiteceu
Escolas, eu peço o silêncio de um minuto
O Bixiga está de luto
O apito de Pato n'água emudeceu

Partiu, não tem placa de bronze

Não fica na história
Sambista de rua morre sem glória
Depois de tanta alegria que ele nos deu
Assim, um fato repete de novo

Sambista de rua, artista do povo
E é mais um que foi sem dizer adeus.

“O samba vai bem, as escolas vêm se desenvolvendo, vêm crescendo. Mas eu estou sentindo que eles estão esquecendo do samba, a origem, a raiz, o pé no chão, aquele samba bonito que o povo canta junto com as escolas. Faz já um certo tempo que eu não ouço o povo cantar com uma escola. Pegar um samba, logo que a escola entrar, cantar as três vezes, sem bateria. Quando ela entra na passarela, o povo tai cantando junto. Então estou sentindo falta disso. Eles não estão muito preocupados com isso. Estão preocupados com o visual, com aquela coisa toda. Mas ele continua crescendo.”

Que gente é essa

De pé no chão

Que tem no canto

Sua forma de expressão?

Canto na travessia

O seu triste lamento

Para amenizar

Tanta dor e sofrimento

Que canto lindo

Na plantação

O rei escravo cantou

Na mineração

Rezou cantando

Ao pai Oxalá

Agô-gegê e iorubá

Eparrei!

Oiá oiá vem nos ajudar

Kaô Kaô Kaô iorubá

Depois surgiu Palmares

Sua confederação

E um canto livre

Vem lá do sertão

Cantou na capoeira

No tronco cantou e gemeu

Ela cantando embalava

Um filho que não era seu

Hoje essa gente sofrida

Vem dos morros e favelas

Mas traz um canto divino

Que ilumina a passarela. Quem é?

É o canto negro, sinhô

É o povo negro, sinhô

É a liberdade, sinhô.

sábado, 5 de dezembro de 2009

Seu voo paralelo

Para Daniela

Quando o verso se propõe
Em transparência e peso,
Muitas palavras são
Naufrágios de outros sítios.

Gosto de pássaros.
Por isso minha retina seca
No seu voo
Paralelo.
Me faz um pouco de asas
Do verão que agora nasce.

O tempo é verde.

Plantarei um dia o tempo no mar.
E brotará doce e triste
O brasil dos seus olhos.

Tão
Lento que me afoga
Nessa rede de descanso,
Vento que me afaga
No sal branco do rochedo.

Tenho, sim, mãos de colher palavras.
Mas a dor delas reunidas
Invade minha vida
No plantio agudo
Do eito contra as águas.

Essa noite
Dormirei
Ao seu lado
O arado da manhã.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Uhuru (palavra para dizer Liberdade, em yorubá)

(Para a geografia do menino, e à memória de suas marcas no chão.)


Vestido com as armas de Jorge
Estilete com dois lados.

Assim é a roupa que separa
Classifica e disfarça.

O respeito de pai não se herda.
Mas tomam o sangue do povo na taça.

E em todo proletário em guerra se tem uma ameaça.
Pois a fome não se cala.

Nos classificam, nos denominam, nos separam por raça.
Mas há os que não se abaixam.

Os pratas da casa que pregam a palavra pra conter a arma.
- e com o intuito do guerrilheiro que usa a alma e a espada.

Há um detalhe que não passa: a farda.

Somos um lado da guerra
E de predadores temos tudo.

A maldade, o sofrimento, as armas
e a raiva da caça.

Ferréz.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Sono tranquilo

Meu leiteiro tão sutil /de passo maneiro e leve - Drummond


O vento colhe a vela.
O mar recolhe o verso.

Meu país dorme com tiro.

O menino voa pelos varais.
Riscos na noite não são
Riscos de estrelas.

O fim do morro vê o horizonte
E os pássaros lá deixados.

A paisagem desesperada desmente
O que se propaga à nação.

O país cai. Toda tarde.

E a noite propõe escape
Longe das armadilhas.

Toada da tarde.

Mas desta, o menino não escapou.

Ao lado dos chinelos,
A geografia do seu corpo
Ensina...
É mapa aberto no chão.

Apaguem as estrelas.
O fim do morro recorta o oceano.
E o pássaro lá deixado.

O país está dormindo agora.
Está dormindo com um tiro.

domingo, 15 de novembro de 2009

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

cheiro amargo de uvas

Capitão do mato tá me procurando

com olhos de ver beleza aclareada de águas
ouro em pó nos requebros
mel nas pupilas e nos seios
suavidade nos passos

não me acha não.

Aqui desse lado da margem
as águas são mais turvas
beleza tem que cavucar
bem fundo
bem fundo
devagar.

(meu avô tem cabelos brancos
minha avó tem cabelos brancos).

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Quilombo São José



Quilombo dos Palmares

“Publico aqui texto lançado em Fevereiro de 1996 no zine Não Racismo, de minha autoria.”

No passado ano de 1995 foi comemorado, no dia 20 de Novembro, os 300 anos da morte de ZUMBI DOS PALMARES, data na qual a partir da década de 80 vem sendo comemorado o “Dia da Consciência Negra”, ofuscando o 13 de Maio da Libertação dos Escravos, assinado pela princesa Isabel, o que realmente não passou de pura sacanagem. Em primeiro lugar nem deveria haver escravos, em segundo a liberdade dada a eles nada mais era que pura obrigação e em hipótese alguma poderia ser considerado um ato de humanidade, ainda mais se levando em conta que os escravos libertos foram largados a margem da sociedade, ficando em situações piores às quais se encontravam antes. Os resultados desta exclusão podem ser observados atualmente em nosso país, onde a maioria da população pobre e miserável é constituída de negros e mulatos.

O Quilombo dos Palmares, embora os livros de história não digam, foi o primeiro país livre das Américas, pois ali foi estabelecida uma sociedade onde todos os homens eram livres, como alias deve ser constituída uma sociedade de seres civilizados. Palmares começou a surgir em 1597 e durou até 1694, seu território se estendia por 150 quilômetros de comprimento e 50 de largura, nos Estados de Alagoas e Pernambuco. Sua população variou muito em 100 anos, relatos iniciam em 6.000 habitantes chegando até 30.000. No auge, Palmares teve nove cidades ou mocambos, em moldes africanos, a confederação constituía um Estado. Cada mocambo tinha seu chefe, juntos, eles elegiam o rei do Quilombo. Em caso de ataques ou expedições guerreiras, as forças dos mocambos se uniam. Sua sociedade era multirracial, com a presença de negros, índios e brancos pobres. Eles fabricavam armas e ferramentas com a metalurgia trazida da África, plantavam milho, fumo, batata e mandioca. Também faziam comércio com os seus vizinhos, trocando a produção por tecidos, sal, ferramentas, armas e munições. Enfim os escravos trazidos da África eram tão bem ou até mais organizados que os seus senhores portugueses e não um bando de macacos como se insinua nas escolas com sua educação racista.

Mais de 4 milhões de escravos chegaram ao Brasil entre 1531 e 1855, eles eram trazidos em navios que vinham superlotados, chamados de “TUMBEIROS” porque boa parte da “carga” morria na viagem. Os escravos eram utilizados para trabalhar nas plantações e como empregados domésticos. A vida do escravo doméstico poderia ser menos terrível dependendo de seu senhor. Já os escravos empregados na colheita de cana trabalhavam até morrer, sua media de “vida útil” variava entre cinco e no máximo dez anos. Seguem as conseqüências do trabalho e dos castigos no corpo dos escravos relatados pelo antropólogo Gilberto Freyre:

- Por excesso de trabalho: “Deformações das pernas e da cabeça, algumas das quais devem ser atribuídas ao hábito das mães escravas trazerem os molequinhos de mama escanchados às costas durante horas de trabalho. Vários negrinhos, meninos de 10, 12 anos, já aparecem de croa na cabeça (...), feita à força pelo peso de carretos brutos: tabuleiro, tijolo, areia (...).”

- Por castigos: “Numerosos os que apresentam, nas coxas ou nas costas, letras, sinais ou carimbo de propriedade, como hoje o gado; (...) uns manquejando, os quartos arreados em conseqüência de surras tremendas; outros com cicatriz de relho pelas costas ou nas nádegas; ou então cicatriz de anginho, de tronco, de corrente no pescoço, de ferro nos pés, de lubambo no tornozelo.” Obviamente eram os escravos da colheita os que mais fugiam, por isso qualquer sinal de rebeldia era punido. Depois das chicotadas, os escravos recebiam um coquetel de sal, limão e urina nas feridas.

Em resumo a escravidão acabava com toda a condição humana dos escravos. Os negros perdiam a liberdade, a língua natal, os costumes e até a identidade, misturados com vários povos africanos. Os escravos perderam tudo, até a possibilidade de se reconhecerem. Nos quilombos podiam viver por conta própria e recuperar um pouco sua identidade, praticando um pouco mais os seus costumes.

Importante ressaltar que os sacerdotes cristãos da época opinavam que o principal motivo da aquisição dos negros era o de trazê-los ao conhecimento de Deus e à salvação, então seus donos deviam levá-los a igreja e instruí-los na religião cristã. Infelizmente não era bem esse o objetivo real da aquisição dos negros e a Igreja Católica nunca fez nada para tentar impedir este verdadeiro massacre em massa que foi executado durante Quatrocentos Anos e até se utilizou da escravidão em proveito próprio.

Zumbi quando foi capturado em Palmares, em 1655, era recém-nascido, foi entregue ao padre Antônio Melo, que o batizou como Francisco e o educou. Aos 10 anos de idade já sabia todo o latim e bom português. O padre em cartas comentou sua inteligência e teria sido até coroinha. Em 1670, com 15 anos, Francisco fugiu para Palmares, por não aceitar a escravidão. O padre relata em cartas que, anos depois, o rei Zumbi veio visitar-lhe por três vezes.

Palmares resistiu a mais de trinta expedições, no decorrer de noventa anos. Sempre usando da tática de guerrilha, abandonar o local destruindo tudo que houvesse por ali e lançar emboscadas, depois desapareciam na selva. Até que em 1678, as autoridades resolveram propor conciliação. O rei Ganga-Zumba foi a Recife firmar pacto de paz com o governador de Pernambuco. O pacto previa a deposição de armas dos quilombolas em troca da concessão de terras e da liberdade. A alforria só seria concedida aos negros nascidos no quilombo. Os outros retornariam ao cativeiro. O pacto dividiu Palmares, Zumbi tornou-se o líder da resistência ao acordo, por ele excluir os não nascidos em Palmares. Ganga-Zumba, seguido por seus homens, entre eles importantes chefes militares, mudaram-se para Cucaú, onde a iniciativa de convivência com os moradores da vilas próximas não deu certo. Em 1680 um partidário de Zumbi envenenou Ganga-Zumba. A partir de 1678, Zumbi tornou-se o líder de Palmares e impôs um forte esquema militar a vida do quilombo.

Em 1.687 o governador de Pernambuco fez o primeiro contato com Domingos Jorge Velho, bandeirante paulista que se comprometeu a destruir Palmares. Os bandeirantes são descritos nos livros escolares como heróis que ajudaram a expandir o território nacional, porem sua principal atividade era matar, combater e escravizar índios, usar índias para seu prazer e também aproveitavam para assaltar fazendas e roubar gado. Sua imagem é a de senhores patriarcais, com botas altas, casaco e chapéu; na verdade eles eram mestiços pobres e maltrapilhos, que falavam mais tupi do que português. O bispo de Pernambuco o descreveu assim “Esse homem é um dos maiores selvagens com quem tenho topado. Quando se avistou comigo trouxe consigo intérprete, pois nem falar sabe. Não se diferencia do mais bárbaro tapuia. Lhe assistem sete índias concubinas e sua vida, até o presente, foi andar metido pelos matos à caça de índios e índias”.

Jorge Velho que se encontrava em Piauí veio até São Paulo para montar sua tropa e voltou para o Nordeste numa caminhada espantosa de 6.000 quilômetros, na volta que durou um ano, 196 homens morreram e 200 desertaram. Quando chegou tinha sob seu comando 1.000 homens de arco, 200 de espingarda e 84 brancos que os comandavam. Porem recebeu a ordem de combater os janduis que se rebelaram na Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceara, e estavam dando muitos problemas aos sertanistas. Então lá foi Jorge Velho e causou todo estrago que pode “penetrando lá com a sua gente o interior da campanha queimou as principais aldeias e degolou toda a nação que nelas estava”, elogiou, o governador geral do Brasil. O arcebispo da Bahia também felicitou-o mais tarde por “haver Vossa Mercê degolado 260 tapuias”. Como se o fato de matar os índios que tiveram suas terras invadidas e por isso se rebelaram fosse algo grandioso e não odioso como era na realidade.

Após esta batalha Jorge Velho comandava 600 índios e 45 brancos aos quais se somaram tropas locais num total de 200 homens, estando acampados próximos a Macaco, alguns soldados que deixaram o acampamento para caçar foram atacados pelos Palmarinos. As colunas pernambucanas debandaram, esta primeira derrota ocorreu em 1.692. Com novos reforços - 100 homens comandados pelo paulista Manuel Navarro - Jorge Velho deu duas investidas contra os Palmarinos que conseguiram repelir os atacantes, batido pelos negros ele fez uma retirada estratégica. Voltou para o litoral e planejou sua vingança.

No confronto final se reuniram entre 3000 e 9000 homens, conforme relatos diversos, incluindo a tropa dos paulistas e as forças locais. Chegando a Macaco, que ficava no alto de um morro de 550 metros de altura, defendido por mato fechado, que tinha na retaguarda um precipício que oferecia proteção natural. Á frente, levantavam-se três estacadas semicirculares de pau e pedra, antecedidas de fossos camuflados com vegetação onde toras pontiagudas podiam empalar um homem. A solução para os ofensores foi fazer uma cerca de pau a pique para se proteger. No primeiro ataque, dia 23 de janeiro de 1.694, em três frentes, os atacantes foram rechaçados tanto a “armas de fogo e flechas disparadas dos baluartes, como a água fervendo e brasas acesas lançadas pela estacada”. No dia 29, outra investida teve o mesmo desfecho. No intervalo entre os dois ataques, Jorge Velho pediu canhões ao governador, chegaram seis, número grandioso em tempos coloniais.

A solução para se aproximar da paliçada foi a construção de uma cerca obliqua, que se ergueu durante a noite. Ao raiar o dia 5 de fevereiro, Zumbi ao descobrir a contra cerca dos atacantes teria dito “Amanhã seremos entrados e mortos, e nossas mulheres e filhos cativos”. Na madrugada da noite seguinte aproveitando uma brecha na contra cerca, próxima a um penhasco e de cerca de 15 metros, lançaram um contra-ataque, provavelmente apenas tentando uma fuga desesperada. Eram 2 horas da madrugada quando ele investiu, o banho de sangue começou naquele instante. Os atacantes reagiram à bala. “Se lhes deu uma carga de espingardaria, aos que estavam já da parte de fora da cerca, donde se mataram muitos e foram tantos feridos, que o sangue que iam derramando serviu de guia às nossas tropas que os seguiram”, contou exultante o governador. Muitos, cerca de duzentos, encurralados, caíram no despenhadeiro. O massacre continuou no dia seguinte, restaram do combate 510 negros feitos prisioneiros. Somente mulheres e crianças foram poupados, muitas mulheres mataram seus filhos para livrá-los do cativeiro e se recusaram a comer, morrendo de fome. Depois de 22 dias de resistência, Macaco havia tombado. Ao receber a notícia, no Recife, Melo e Castro mandou rezar uma missa de ação de graças, jogou dinheiro da janela do palácio para o povo e autorizou que se acendessem luminárias durante seis dias, em Olinda e Recife, em sinal de regozijo. Como se dizimar pessoas inocentes fosse um ato para ser celebrado. Nos meses seguintes, as outras povoações, menos defendidas que Macaco foram destruídas, uma a uma. Palmares sumiu do mapa.

Em dezembro de 1.694 surgiu a noticia que Zumbi estava vivo. Em setembro de 1.695, um dos bandos de Zumbi é emboscado e Antônio Soares, homem de confiança de Zumbi, aprisionado. Em novembro ele cai nas mãos do capitão paulista André Furtado de Mendonça, após muita tortura delata o paradeiro de Zumbi. Antônio Soares conduz um grupo de 15 bandeirantes paulistas até a Serra Dois Irmãos. Zumbi estava acompanhado de seis homens no combate derradeiro. Zumbi não caiu sem luta. Quando se viu emboscado, “pelejou valorosa ou desesperadamente, matando um homem, ferindo alguns e não querendo render-se nem aos companheiros, foi preciso matá-los”, contou o governador. Era 20 de novembro de 1695. Despachado para Porto Calvo, o corpo de Zumbi, estava cruelmente mutilado, exibindo “quinze ferimentos de bala e muitos de lança, vendo-se ainda que membro da virilidade do dito negro se havia cortado e enfiando na boca, também lhe faltando um olho e se lhe cortara a mão direita”. A sua cabeça fora cortada, tratada em sal fino e enviada a Recife para ser exposta no lugar mais publico, como seria feito séculos afora, de Tiradentes a Lampião.